Um Cavalo para Ferrik


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Já era uma noite fria de inverno quando Ferrik, o jovem, avistou uma lanterna sacudindo ao ritmo de cascos pela estrada, surgindo e desaparecendo entre as árvores que lajeavam o caminho até a pequena aldeia. Um visitante àquela hora da noite só poderia significar problemas. Assim ele postou-se na porta a esperar do que viria.
A passada do cavalo era suave e elegante, ecoando pela noite como a batida ritmada dos pés dos dançarinos no festival da colheita. Ferrik conhecia todos os cavalos da região e pode dizer com toda a certeza que aquele que vinha pela estrada não era nenhum conhecido. Sentiu pouco receio, porém, pois como diziam nos arredores, Ferrik nascera com uma coragem prodigiosa, ou uma estupidez monumental. Provavelmente, imaginavam, uma mistura de ambas.
Ao fim da estrada, Ferrik finalmente pode ver a lanterna erguida acima da cabeça de um homem. Não um viajante comum, como ele esperava, mas um soldado trajando o uniforme gasto do império. Então, pela primeira vez desde que podia se lembrar, Ferrik sentiu medo, pois soube que o momento que havia esperado por tanto tempo havia chegado.
– Procuro por Ferrik de Bondegard. – O soldado disse com a objetividade característica de sua profissão, ao deparar-se com os olhos do jovem, a porta observando seus passos.
– Eu sei. – Foi sua resposta. Arrancando um sorriso involuntário do rosto sisudo daquele soldado de estrada, com cabelos que começavam a sentir o peso do inverno e um olhar cruel como de um lobo acuado. O soldado aproximou-se da porta de Ferrik e encarou-o esperando algo mais do que aquelas palavras, mas Ferrik só tinha a lhe oferecer a porta aberta e um gesto para que entrasse.
O soldado desmontou, deixando a bela montaria solta, sem qualquer receio de que ela fosse embora e atravessou o pequeno jardim a frente da casa de Ferrik, subindo a varanda onde o rapaz continuava parado. O soldado parou a sua frente novamente, encarando-o com olhos de um negro sombrio como sangue coagulado. Era bem mais alto do que Ferrik, olhando-o de cima como se continuasse montado em seu cavalo. Ferrik respondeu ao olhar com uma calma surpreendente e esperou que seu súbito convidado entrasse para fechar a porta.
Suas botas pisaram pesadamente contra o chão de madeira, tornando a pequena cabana onde o rapaz vivia, um lugar ainda menor. Por todos os lados, em cada espaço de parede, onde quer que o soldado pudesse olhar, estavam espalhadas as quinquilharias de um ferreiro. Peças de metal, martelos e atiçadores, bigornas e arrebites. E espadas, por todos os lados, de todas as formas, lâminas de todos os tamanhos e brilhos. Certamente aquele era o lugar certo, o soldado pensou. Aquela era a casa de Ferrik de Bondegard.
– Ele era meu pai! – O jovem Ferrik respondeu aos pensamentos do soldado, sintetizando em suas belas palavras tudo o que ele não gostaria de ouvir. O fato dele ter sido pai do garoto, provava que não estava mais entre os vivos. – Você é Dhomar, não é?
– Seu pai falou de mim. – O fato do rapaz saber seu nome, deu alguma esperança ao soldado, mas não o suficiente.
– Ele disse que você traria uma prova! – Ferrik não esperava que aquele dia fosse chegar de fato, mas ali estava ele, a lenda perdida de seu pai. O soldado balançou a cabeça, puxando uma corrente ao redor do seu pescoço, onde estava presa uma grande chave de ferro negro. Ferrik olhou a chave e imediatamente soube que aquele era Dhomar, embora a prova final ainda precisasse ser feita.
Ele afastou-se em direção a uma estante e encontrou em uma de suas prateleiras um pequeno baú. Dohmar franziu o cenho ao ver aquele objeto minúsculo em suas mãos.
– Você está achando que eu sou algum idiota? – Sua paciência era limitada, sua desconfiança não. A mão enluvada agarrou-se ao cabo da espada, pronto a despachar aquele infeliz para o reino da morte. – Quem é você?
– Um momento, senhor. – A voz de Ferrik era tranqüila e teve a capacidade de impedir o acesso de raiva de Dhomar. – É apenas um teste! – De dentro do baú, que abriu-se com bastante dificuldade, Ferrik tirou uma pedra de aparência bastante ordinária, estendo-a para Dhomar. Só então o soldado percebeu que fora gravada na pedra, o formato de uma chave. Dhomar sorriu e estendeu a chave, deitando-a na pedra, fazendo que ela se encaixasse com absoluta perfeição, sem qualquer folga. O soldado sentiu os anos de procura finalmente se extinguindo de sua alma.
– Por um momento achei que sei pai havia levado para o túmulo o tesouro de Andernofh. Vê? A chave encaixa! Eu sou quem digo ser! Onde está o tesouro?
– Escondido nas montanhas, meu senhor. Eu o levarei até lá pela manhã.
– Não! Vamos imediatamente. Estou sendo caçado por todo o reino e não posso esperar um minuto sequer.
– As trilhas são perigosas durante a noite.
– Não importa.
Ferrik sentiu-se parcialmente aliviado com a pressa de Dhomar. Assim que o soldado saísse de sua vida, ele poderia voltar ao que era. Em pensamento lembrava-se de todas as instruções de seu pai, esperava que nada corresse errado.
A trilha pela montanha era íngrime e eles a fizeram a pé. Dhomar enxergava apenas o que a sua lanterna parecia capaz de mostrar, o que era nada se comparado com a percepção que Ferrik tinha de toda a região. O rapaz havia se acostumado a fazer aquele trajeto no escuro, sempre pronto a qualquer eventualidade. Um esforço que agora provava-se justificável. Já haviam caminhado por duas horas, quando Ferrik finalmente parou. Dhomar, que vinha logo atrás, adiantou-se deparando-se com a figura muito ereta de Ferrik que encarava as sombras a sua frente. Um súbito temor fez com que Dhomar acreditasse ter caído em alguma emboscada. Que garantias tinha ele de que aquele era mesmo Ferrik? O pensamento atingi-o como uma lança a galope e fez com que sacasse a espada de imediato, sentindo-se velho e burro.
– O que diabos… ? – Ele quis dizer. Mas novamente foi surpreendido pela voz pacata de Ferrik.
– Chegamos! É ali que está! – O dedo do rapaz se eriçou na direção do que parecia ser um gigantesco paredão de pedra. – A chave abre uma porta oculta, ali dentro você vai encontrar o tesouro de Andernofh.
Dhomar gargalhou de alegria. Finalmente havia conseguido o que desejava. Ele adiantou-se a Ferrik, buscando na escuridão o que poderia ser uma porta, mas não pode ver nada. O jovem levou-o até a parede de rocha, onde um buraco do tamanho de um punho havia sido esculpido.
– Você tem um belo cavalo lá embaixo, Dhomar.
– O que quer dizer?
– Eu não tenho nenhum.
Dhomar sorriu, se o garoto queria ficar com aquele cavalo, que ficasse. Era um homem rico agora e um cavalo não era nada. Ele enfiou o braço até o cotovelo, encontrando o fundo do buraco e com os dedos tateou o que parecia ser uma fechadura. Retirando a chave novamente do pescoço, ele a introduziu no buraco, tentando encaixa-la em seu leito.
– Ele é treinado?
– O quê?
– O Cavalo!
– Sim, é sim! – Por um treinador rentar, os maiores cavaleiros de todo o mundo. Mas Dhomar não estava preocupado com aquele cavalo, havia acabado de encaixar a chave na fechadura e fazia força para girá-la.
– Sempre quis ter um cavalo treinado. Mas sou um péssimo cavaleiro, você acha que aprendo rápido?
– Aprende sim! – Dhomar sentiu as antigas engrenagens cederem vagarosamente. E quase chorou de tanta alegria. A partir daquele dia, viveria como um rei.
– Uma das histórias favoritas de meu pai, era sobre você e seus cavalos.
– O que tem isso? – O mecanismo parecia mais solto, agora girava com pouca dificuldade, Dhomar ouviu as engrenagens se movendo por baixo do paredão de pedra. Havia funcionado.
– Ele dizia que você odiava cavalos.
Houve um grande barulho, como a abertura de uma grande tranca. E Dhomar não pode ouvir as últimas palavras de Ferrik. A parede inteira começou a tremer e o garoto se afastou rapidamente. Dhomar tentou fazer o mesmo, mas descobriu que seu braço estava preso. Alguma coisa havia se fechado ao redor de seu pulso. Ele olhou novamente para Ferrik, que agora sorria. Havia sido enganado, havia caído em uma armadilha.
– Meu pai sempre falou que apareceriam pessoas como você, Dhomar, com chaves falsas. O formato dela é idêntico, mas ela não tem a alma certa. E a alma certa não abre a porta.
– Garoto, garoto! Eu fui enganado, não tinha como saber que… – Dhomar parou de falar ao sentir seu braço sendo puxado para dentro da rocha. Ele gritou, e lutou contra a força do mecanismo, mas não havia nada a fazer, exceto, talvez, cortar o próprio braço, se fosse rápido o suficiente para pensar nisso. Mas Ferrik sabia que a tendência de todos é lutar contra a força da armadilha. Ele sabia porquê já havia visto aquilo outras vezes no decorrer da sua vida. Logo Dhomar estava com o braço enfiado na parede, até a altura do ombro e seu rosto se colava com a rocha. A máquina torceria seu braço, quebrando-o em várias partes e ele berraria como nunca.
– Foi um prazer, Dhomar! – Ferrik virou as costas e partiu, não gostava de ver como tudo acabava. Ouviu a tranca final da armadilha se acionar e Dhomar tentar um último grito antes de ser subitamente interrompido por seu golpe final. O homem que dizia chamar-se Dhomar estava morto. E Ferrik havia conseguido um novo cavalo.

•••

Publiquei originalmente esse texto em 2007, no meu antigo blog. Como ele se relaciona ao universo de Chamas do Império, achei confortável traze-lo para cá. A história se passa muitos anos depois que a história do Chamas do Império, aconteceu e nenhum dos personagens que aparecem nesse conto estão no Teatro da Ira, mesmo assim espero que vocês gostem.

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