Journal : Um livro gratuito


Mercado-editorial

Por quê de graça?

A decisão de colocar um livro inteiro online, no formato de “blog série” encontrou bastante resistência entre as pessoas com quem eu falei a respeito. Os argumentos eram muitos. Por quê divulgar um livro que não está pronto? Por quê dar de graça o que as pessoas deveriam pagar para ler? Como vender algo que as pessoas estão lendo de graça? Enfim… a questão central é: porquê tentar algo novo, quando o mercado editorial têm como consagrado que as pessoas precisam pagar para ler algo?
Não tenho todas essas respostas. Colocar o livro inteiro online foi uma decisão que, em primeiro momento, nada teve haver com dinheiro. É bom entender que este blog e os capítulos deste blog são uma versão beta do livro e não tem nada de definitivo. De verdade algumas coisas foram mudadas assim que os capítulos foram publicados, embora até agora nenhuma grande diferença possa ser notada. Escrever desta forma para mim tem duas vantagens. A primeira é poder contar com a opinião dos leitores a respeito da história, tentando ajustar os deslizes do enredo. A segunda é ter uma obrigação contratual de escrever e publicar dentro de um período de tempo. Sim, O Teatro da Ira tem data para terminar. A cada 15 dias eu publico um capítulo, sendo 12 13 capítulos, a obra inteira precisa estar pronta em 195 dias. Essa pressão do prazo me ajuda a não perder (muito) tempo com as frivolidades e me dão foco para que o livro saia do papel. Posso encaixar ai uma terceira razão: O livro vai estar pronto. Vai ter sido publicado. E embora uma coisa ou outra possa mudar, não vou poder mais perder meu tempo em tratamentos sem fim. É o jeito que encontrei para abandonar a idéia de perfeição e me conformar com o imperfeito ao meu alcance.

Mas e depois?

Essa pergunta eu ainda não sei responder. O atual sistema de publicação nacional privilegia os grandes e dá pouca importância aos pequenos. Em ordem, quem ganha dinheiro no mercado editorial é quem está na ponta do ciclo do livro. A livraria ganha mais do que a editora, a editora ganha mais do que o autor. Publicar da forma como os livros vem sendo publicados aqui só se torna interessante para os grandes autores, aqueles que vendem mil livros por mês (sim, isso é muito aqui no Brasil). Então a resposta sobre o que eu vou fazer depois é: Não sei. Vou continuar escrevendo, vou pensar a respeito do que vale a pena ser feito (do ponto de vista de negócio) do livro. Talvez o Teatro da Ira se torne apenas mais um volume poeirento na minha estante, talvez um e-book, talvez nada. Ou talvez eu entregue o volume na mão de um editor e me esqueça dele por um tempo. Gostaria de ter pretensões maiores do que essa, mas a verdade é que eu duvido do mercado em si e não faço isso só por ter sonhado um dia em ser um escritor. Faço porquê eu tenho uma história para contar e ela precisa ser contada.
Não vou ser hipócrita em dizer que não seria delicioso viver disso. Passar os dias escrevendo histórias, sem ter que espremer as idéias dentro do tempo hábil para concebê-las. Seria fantástico ser um escritor em tempo integral. Seria uma forma de escrever mais (e melhor). Mas sei que são poucos os autores no Brasil que conseguem viver exclusivamente disso, ainda mais tão no início. Já que eu não vou poder viver disso tão cedo, posso me dar ao luxo de não ganhar esses vinténs por enquanto. Para simplificar, ficam os pensamentos de Fernando Pessoa:

Se eu morrer novo,
sem poder publicar livro nenhum
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força.
Nada o pode impedir.
Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva –
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.
Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela unica grande razão
-
Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e a chuva,
E sentando-me outra vez a porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraido.
Alberto Caeiro, 7-11-1915

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