Journal : A ária fúnebre (spoiler)


Hugo Simberg, Garden of Death  1896

Hugo Simberg, Garden of Death 1896

Atenção: Este artigo trata sobre os acontecimentos dos capítulos 5 e capítulo 8, se você não leu estes capítulos e tem medo de spoilers, é melhor parar por aqui.

Sou um cara disperso. O jeito que encontrei para evitar a dispersão enquanto escrevo foi fazer um pequeno roteiro com os acontecimentos mais importantes de cada capítulo. Isso não é uma tábua sagrada e eu não vejo problema em ir atualizado o resumo a medida em que provoco pequenas mudanças no decorrer da história. O roteiro é um esqueleto que suporta a “criatura”, o que é bom pois me mantém no rumo ao fim.
Esse jeito de escrever me da uma perspectiva diferente do livro. Conhecer o destino de todos os personagens deveria me tornar apático a cada um dos seus sofrimentos, mas ao contrario disso, me faz compassivo com suas histórias. Estou escrevendo isso logo após terminar o Capítulo 8 do Teatro da Ira que termina com a brutal morte de Thamos. Eu sabia que Thamos iria morrer no momento em que ele apareceu. Alguns personagens são assim, nascem mortos embora não saibam. Outros simplesmente morrem pelo caminho. Thamos era um natimorto. Isso não quer dizer que eu não gostasse dele, pelo contrario, a cada linha eu me compadecia mais do destino que eu havia lhe reservado e em determinado momento pensei mesmo em salvá-lo com algum gesto arbitrário de proteção divina, mas mantê-lo vivo seria menosprezar a sua importância. Mantê-lo vivo, seria esquecer do motivo pelo qual ele havia sido criado.
Um sentimento parecido aconteceu quando Krulgar e Khirk deixaram a Aldeia da Pequena Rainha. O massacre que os caçadores de Krulgar e Thalla cometeram tinha um sentido todo lógico de existir, era um alerta para mim e para os leitores de que ali não existiam heróis. Uma pequena amostra da complexidade que se tornaria julgar as pessoas entre o bem e o mal. Os aldeões eram bons, mas achavam corriqueiro escravizar e abusar de uma dhäen e seu filho. O magistrado, representava a ordem do Império e sua lei, mas achou corriqueiro matar mulheres e crianças que tinham ficado em seu caminho. Krulgar deveria ser o herói da história, mas escolheu virar o rosto quando percebeu que aquilo iria custar sua vida. Khirk então surgiu como o redentor… mas a sua redenção não tinha nada a ver com a salvação esperada pelo leitor, o que ele tinha a oferecer era a morte.
Eu morri um pouco nas duas cenas e sabia que morreria um pouco mais até que o livro chegasse ao fim. Restava saber se todas aquelas mortes fariam sentido em um contexto maior, ou se tinham sido simples desperdício. Nós sobrevivemos através da história da nossa vida. Era acreditando naquilo que eu pude sacrificar todos aqueles personagens, entregando suas vidas para torná-los imortais. Como disse Krulgar, a canção do mundo é uma ária fúnebre.

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