Journal : O livro não te pertence


The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore

The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore

Então você gasta alguns meses da sua vida trabalhando em um livro, meses que se contabilizados podem chegar a anos ou mesmo décadas. Tempo gasto entre novas leituras, descobertas, tentativas fracassadas, pesquisas e mais pesquisas, escrita e reescrita, revisão, releitura, desistências, incentivos, sentar-a-bunda-na-cadeira-e-terminar-logo-esse-troço e depois mais revisões, mais opiniões, mais reescrita e assim indefinidamente até que se toma coragem de colocar a caravana na rua e enviar seu original para as editoras (aqui o processo se repete por um tempo, acho que não preciso me alongar). Depois de muita esforço seu livro é aceito em uma editora e você comemora. Seus amigos te parabenizam, sua mãe te apresenta como o filho escritor e toda aquela loucura de ‘gramur’ que as pessoas imaginam.

Se você alcançou esse ponto de sua carreira, eu lhe felicito sobre suas conquistas, são poucos que chegam a tanto, mas também te alerto sobre o que está vindo a seguir. O autor iniciante, quando vê o inicio da etapa da edição tende a imaginar que o trabalho duro já passou e agora tudo são glórias, mas a verdade é que ele apenas começou de fato. Dentro de uma editora séria (estou excluindo aqui todos os tipos de editora sob demanda, as editoras do tipo favor de amigo, as auto publicações e coisas do tipo) aceitaram o seu livro como um produto que vai ser comercializado, de forma a justificar o investimento que ela inevitavelmente fará sobre a obra, isso significa que o produto por melhor que seja, será retrabalhado a exaustão até que se torne algo que a editora considere digno de chegar as prateleiras. Todo esse processo tem a participação do autor e é aqui que realmente começam as dificuldades para aquele que realmente quer se tornar um autor profissional.

Um livro publicado (e editado) foi eviscerado de todas as formas que você pode imaginar. Leitor Crítico, Editor, Copydesk, Revisor, Diagramador, Capista, Impressor e todos os profissionais que colocam a mão naquele livro de uma forma ou de outra contribui para a concepção do livro que o leitor segura entre os dedos, cheira e folheia. Ter tantas mãos mexendo no trabalho que você levou meses construindo pode ser um tanto estressante, as vezes um pouco traumático, mas é preciso ter confiança que neste caso estão todos trabalhando para que o livro se torne um produto de sucesso. Ninguém trabalha para sabotar um livro, mesmo que as opiniões sejam diferentes das suas, estão todos dando o que consideram o melhor, para que a obra se torne um bem vendável, justificando assim a trabalheira toda.

Isso tudo dito, chega o momento da porrada mais bruta, então tome fôlego e beba um copo d’água enquanto assiste essa animação, antes de ler o próximo parágrafo.

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Pronto? Pois bem, aqui vamos nós pela toca do coelho: O livro, como chega a prateleira, não te pertence.

Calma. Não precisa sorrir como se eu estivesse louco. É óbvio que você é o grande responsável pela obra e que se você não tivesse sacrificado todo esse tempo com a sua família, não existiria nada para a editora comercializar. Também é bastante claro que você pode tirar a sua obra desta ou daquela editora quando quiser (desde de que respeitando as cláusulas contratuais), e que por fim a obra te pertence sim, pois você é o dono da bola do livro e se não for do seu jeito, ninguém brinca publica.

Mas o livro, realmente não te pertence. O produto livro que chega as prateleiras pertence a todos os envolvidos neste projeto, gente que as vezes nem tem os nomes registrados nas folhas de crédito. Todos eles contribuem e interferem na concepção do livro e é importantíssimo que o autor iniciante (digo isso, porquê o veterano já deve ter me entendido) aprenda que por mais que faça marcação serrada durante o processo, o livro inevitavelmente vai mudar no decorrer da edição, entre deixar de ser um manuscrito original, para tornar-se um livro publicado.

Sim, eu sei. É seu filho, você o criou por muito tempo e dedicou a ele o seu melhor, mas assim como os filhos de carne e osso, os de papel e letras também precisam sair de casa um dia. Publicar um livro é isso, entregar sua obra para o mundo e aceitar a inevitável dor de vê-lo caminhando sozinho, sem que você possa mais guiá-lo a cada passo. Vê-la crescendo, conquistando amigos, recebendo críticas e seguindo adiante. Se você não pode lidar com isso, talvez seja caso de repensar esse seu desejo de publicação.

Escrever um livro é pura diversão. Depois que ele acaba é que vem o trabalho duro e francamente, talvez todo esse trabalho, dor e sofrimento, não seja para todo mundo. Você pode ser um escritor feliz, mantendo sua obra em blogs, wattpads, ou publicando de forma independente, sem ter que pedir a autorização de ninguém (nem da língua portuguesa) para colocar ou tirar uma vírgula. Tenho manuscritos na minha casa que jamais deixarão o ninho. Páginas que se empilharam apenas para acumular pó na estante e, quem sabe, divertir-me quando ficar mais velho e estou bem com eles aonde os deixei. Agora, se você quer mesmo que uma editora (grande, ou pequena) séria se comprometa com o seu livro, então você também precisa se comprometer com ela. Estão todos do mesmo lado, embora nem sempre as opiniões sejam as mesmas. Então pare de tratar a tudo e a todos como seus inimigos juramentados e comece a trabalhar pelo seu livro. Ou esqueça. Alguns filhos realmente nunca saem de casa.

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Uma resposta para “Journal : O livro não te pertence

  1. Pingback: Journal : Empilhando a lenha | #ChamasDoImpério·

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