Contos : A origem de Jhomm Krulgar


Black Wolf

Sempre achei estranha a forma como a memória se comporta. As vezes ela é como um cão adormecido aos seus pés, respirando suavemente enquanto se aquece junto ao fogo. Outras vezes ela é como uma tropa de cavalos estalando os cascos ao seu redor e ameaçando partir sua espinha sob suas patas. Sou velho agora e tudo o que eu tenho são essas antigas lembranças. Os irmãos justos são gentis comigo, me alimentando e esperando a minha morte, mas não tem disposição para ouvir as histórias de um velho monge sobre colheitas fartas ou novilhos de duas cabeças. Passo boa parte do dia sentado dentro do meu claustro, fazendo minhas orações a Kimpus e pedindo ao senhor dos justos que perdoe os meus pecados, embora saiba que esse esforço é vão. Não existe perdão no vocabulário dos deuses. Existe apenas o que foi e o que precisa ser.

As pessoas se perguntam sobre o segredo da minha longevidade. Dizem por ai que eu me deito com dhäeni para roubar os seus anos. A única verdade, aquela que ninguém desconfia, é que o medo me mantém vivo. Meu julgamento se aproxima com a minha morte. Quando as asas da Piedosa se fecharem sobre mim, serei entregue a Kimpus, que questionará o quão fiel fui aos votos que lhe fiz, antes de permitir a minha entrada em seu Reino. Então lhe contarei a minha história. A única história que os jovens ainda têm paciência para ouvir.

Todo ano, durante o Dhunmalin, o festival das máscaras da última lua nova do outono, sou convidado a contar a lenda do Mastim Demônio. Já faz mais de cinqüenta anos agora e todos aqueles que poderiam me desmentir estão mortos. A história era conhecida entre as pessoas da aldeia, mas conforme a morte os levava, o que era um fato se tornou apenas outra lenda. Um conto para assustar as crianças. Não conheci essa história através da boca de mais ninguém. Eu vivi com aquelas pessoas, eu orei com a maioria delas e quando o inverno bateu a nossa porta, eu me encolhi com elas diante do fogo, ombro a ombro, para me manter aquecido. Foi juntando os pedaços de suas histórias que eu conheci o mastim do inferno, o garoto cão, a perdição do Império, o garoto que um dia cresceria para ser conhecido como o assassino Jhomm Krulgar, embora naqueles tempos ele não tivesse esse nome.

Este é apenas um aperitivo de um dos contos em que estou trabalhando, que se passam no Império de Karis. Espalhados através dos anos, eles ajudam a dar uma idéia do complexo cenário onde se passa o Chamas do Império. Uma dessas histórias é a origem de Jhomm Krulgar. Para esse conto eu pensei em fazer algo diferente do livro. Resolvi contar a história de Krulgar através dos olhos de alguém que presenciou sua origem. Foi quando surgiu o Monge Belic, um Irmão Justo, da Ordem de Kimpus. Um homem que acreditava no bem, através de todas as adversidades, até aprender que Justiça, não é sinônimo de bondade…

Anúncios

Uma resposta para “Contos : A origem de Jhomm Krulgar

  1. Pingback: Journal : Um gigante entre a novela e o conto | Chamas Do Império·

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s