Inspiração : Andrew Stanton, As pistas para uma grande história


O texto abaixo é a transcrição adaptada do vídeo que vocês podem ver direto no link. Aproveitei a transcrição para fazer alguns apontamentos e destacar as partes que me marcaram mais nessa excelente palestras de Andrew Stanton, um dos grandes roteiristas dos Estúdios Disney.

Um turista está viajando de mochila pelas montanhas da Escócia, e para em um bar para tomar uma bebida. As únicas pessoas lá são um garçom e um homem velho tomando conta da sua cerveja. O turista pede uma caneca de cerveja, e eles se sentam em silêncio por algum tempo. De repente o homem velho se volta para o turista e diz:

– Sabe este bar? Construí este bar com minhas próprias mãos da melhor madeira do condado. Dei a ele mais amor e carinho que a meu próprio filho. Mas me chamam de MacGregor, o construtor do bar? Não.

Em seguida ele aponta pela janela.

– Sabe aquele muro de pedras ali fora? Construí aquele muro de pedra com minhas próprias mãos. Encontrei cada pedra, arrumei-as daquele jeito debaixo de chuva e frio. Mas me chamam de MacGregor, o construtor do muro de pedra? Não.

E continua, apontando pela janela:

– Sabe aquele píer no lago lá fora? Construí aquele píer com minhas próprias mãos. Empilhei a madeira contra a força da areia, tábua por tábua. Mas me chamam de MacGregor, o construtor do píer? Não.

Então ergue o dedo.

– Mas você fode uma única cabra…

Contar histórias é como contar piadas. É conhecer sua frase de efeito, seu final, saber que tudo que você está dizendo, da primeira à última sentença, está conduzindo a um objetivo singular, e, de forma ideal, confirmando alguma verdade que aprofunda nosso entendimento de quem somos como seres humanos. Todos nós amamos histórias. Nascemos para elas. As histórias afirmam quem somos. Todos queremos confirmações de que nossas vidas têm significado e nada traz uma confirmação melhor do que quando nos conectamos através de histórias. Ela pode cruzar as barreiras do tempo, passado, presente e futuro, e nos permitir experimentar as similaridades entre nós mesmos e através de outros, reais ou imaginados.

O apresentador de programas para crianças na televisão, Sr. Rogers, sempre carregou em sua carteira uma citação de um trabalhador social que dizia: Honestamente, não há ninguém que você não pudesse aprender a amar uma vez que tenha ouvido sua história.” E a forma como gosto de interpretar isso é provavelmente o maior mandamento das histórias, que é: “Faça com que eu me importe” – por favor, emocionalmente, intelectualmente, esteticamente, apenas faça com que eu me importe.

Todos sabemos como é não se importar. Você passou por centenas de canais de TV, mudando canal após canal, e, de repente, para em um. [O programa] já está na metade, mas algo te prendeu, e você se envolve e você se importa. Isso não é por acaso, isso ocorre pelo ‘design’.

Isso me fez pensar, e se eu contasse minha vida como uma história, como nasci para isso, como aprendi ao longo do caminho que esse assunto importa?

Para tornar isso mais interessante, começaremos pelo fim e iremos para o início. Então, se eu fosse dar a vocês o final desta história, seria algo assim: e isso foi o que finalmente me levou a falar a vocês aqui no TED sobre histórias.

E a última lição sobre histórias que tive foi completar o filme que fiz este ano, em 2012. O filme é “John Carter“. Baseia-se em um livro chamado “The Princess of Mars” (A Princesa de Marte), que foi escrito por Edgar Rice Burroughs. E Edgar Rice Burroughs de fato tornou-se um personagem dentro do filme, e é o narrador. Ele é convocado por um tio rico, John Carter, à sua mansão com um telegrama que diz: “Venha me ver logo.” Mas, assim que  chega lá, descobre que seu tio morreu misteriosamente e foi sepultado em um mausoléu na propriedade. O mordomo vira para ele e diz:

– Você não encontrará a fechadura. A coisa só se abre do lado de dentro. Ele insistiu, sem embalsamento, sem caixão aberto, sem funeral. Você não adquire a quantidade de riqueza que seu tio controlava sendo como nós, hã? Venha, vamos entrar.

O que esta cena está fazendo, e o fez no livro, é basicamente uma promessa. Está fazendo uma promessa a você de que esta história conduzirá a algum ponto que vale seu tempo. E isso é o que todas as boas histórias deveriam fazer no início, elas deveriam dar a você uma promessa. Você pode fazer isso de infinitas maneiras. Algumas vezes é tão simples quanto “Era uma vez…“. Esses livros de Carter sempre tiveram Edgar Rice Burroughs como o narrador e sempre achei que esse era um recurso fantástico. É como um sujeito convidando você ao redor de uma fogueira, ou alguém em um bar dizendo: “Ei, deixe-me contar-lhe uma história. Não aconteceu comigo, aconteceu com outra pessoa, mas vai valer a pena.” Uma promessa bem elaborada é como uma pedrinha sendo retesada por um estilingue e impulsiona você através da história até o final.

Em 2008, forcei todas as teorias que tinha sobre histórias na época até os limites de minha compreensão durante a produção de Wall-E.

Contar histórias sem diálogo é a forma mais pura de contar histórias no cinema. É a abordagem mais inclusiva que você pode ter. [Wall-E] Confirmou algo sobre o que eu, de fato, tinha um palpite, que a audiência na verdade quer envolver-se na trama. Só não querem saber que estão fazendo isso. Esse é seu trabalho como contador da história, esconder o fato de que você os faz trabalhar para compreender a trama. Nascemos solucionadores de problemas. Somos compelidos a inferir e a deduzir, porque isso é o que fazemos na vida real. É essa falta de informação bem organizada que nos chama. Há uma razão por que somos todos atraídos por uma criança ou um filhote. Não é só porque eles são extremamente fofos; é porque eles não conseguem expressar completamente o que estão pensando e quais são suas intenções. E é como um ímã. Não conseguimos evitar o querer completar, preencher a sentença.

Comecei realmente a entender esse padrão de contar histórias quando estava escrevendo, com Bob Peterson, “Procurando Nemo“. Chamamos isso de teoria unificadora do dois mais dois. Faça com que a audiência junte as partes. Não lhes dê quatro, dê-lhes dois mais dois. Os elementos que você fornece e a ordem em que os coloca são cruciais para você ter sucesso ou fracassar ao envolver a audiência. Editores e roteiristas sabem disso há muito tempo. É a solicitação invisível que sustenta nossa atenção para com a história. Não quero fazer isso parecer como se fosse uma ciência exata. Não é! Isso é o que é tão especial sobre histórias, elas não são coisas, não são exatas. Histórias são inevitáveis, se são boas, mas não são previsíveis.

Fiz um seminário nesse ano com uma professora de arte dramática, chamada Judith Weston e aprendi um elemento chave do personagem. Ela acredita que todos os personagens bem esboçados têm uma espinha. E a ideia é que o personagem tem uma característica interna que o move, um propósito inconsciente, dominante pelo qual ele se esforça, uma comichão que não consegue coçar. Ela deu o exemplo maravilhoso de Michael Corleone, o personagem de Al Pacino em “O Poderoso Chefão“, cuja espinha, provavelmente, era agradar o pai, e isso é algo que sempre conduziu todas as escolhas dele. Mesmo depois que seu pai morreu, ele ainda estava tentando coçar aquela comichão. Aprendi depressa. A de Wall-E era encontrar a beleza. A de Marlin, o pai em “Procurando Nemo“, era evitar o dano. E a de Woody era fazer o que fosse melhor para sua criança. E essas espinhas nem sempre levam você a fazer a melhor escolha. Algumas vezes você pode fazer escolhas horríveis para eles.

Sou realmente abençoado por ser pai. Observando meus filhos crescerem; acredito plenamente que você nasce com um temperamento e é equipado de determinada maneira, e não tem nenhuma intervenção sobre isso e não há como mudar isso. Tudo que você pode fazer é aprender a reconhecer e ser senhor disso. Alguns de nós nascem com temperamentos que são positivos, outros são negativos, mas o limiar principal é ultrapassado quando você amadurece o bastante para admitir aquilo que o governa e para assumir o controle e conduzir isso. Como pai, você está sempre aprendendo quem são seus filhos. Eles estão aprendendo quem são e você ainda está aprendendo quem você é. Assim, estamos todos aprendendo o tempo todo. É por isso que a mudança é fundamental na história. Se as coisas ficam estáticas, as histórias morrem, porque a vida nunca é estática.

Em 1998, eu tinha acabado de escrever “Toy Story” e “Vida de Inseto” e estava completamente viciado em escrever roteiros. Queria me tornar muito melhor nisso e aprender tudo que conseguisse. Assim, pesquisei tudo que pude. E, por fim, encontrei por acaso esta citação fantástica do dramaturgo britânico, William Archer: “Drama é antecipação combinado com incerteza.” É uma definição incrivelmente perspicaz.

Quando está contando uma história, você elaborou a antecipação? No curto prazo, você me fez querer saber o que acontece a seguir? Mas, mais importante, você me fez querer saber como tudo se concluirá no longo prazo? Você elaborou conflitos genuínos com verdade que cria dúvida sobre qual poderia ser o desenlace? Um exemplo estaria em “Procurando Nemo“, na tensão imediata, você estava sempre preocupado, a memória de curto prazo de Dory a faria esquecer seja lá o que for que Marlin lhe dissera. Mas debaixo disso estava a tensão global de conseguiremos encontrar Nemo neste oceano enorme e vasto?

Em nosso início na Pixar, antes que verdadeiramente entendêssemos o funcionamento invisível da história, éramos simplesmente um grupo seguindo apenas na ousadia, nos nossos instintos. É interessante observar como isso nos conduziu a lugares que eram, de fato, muito bons. Você deve lembrar que nessa época, 1993, o que era considerado uma animação de sucesso era “A Pequena Sereia“, “A Bela e a Fera“, “Aladim“, “Rei Leão“. Assim, quando designamos “Toy Story” para Tom Hanks na primeira vez, ele chegou e disse, “Vocês não querem que eu cante, não é?” E penso que isso sintetizou perfeitamente o que todos pensavam que a animação tinha que ser na época. Mas realmente queríamos provar que você poderia contar histórias de maneira completamente diferente na animação.

Não tínhamos nenhuma influência nessa época, mas tínhamos uma listinha secreta de regras que ficava entre nós. E elas eram: sem canções, sem momento “Eu posso”, sem vilarejo feliz, sem história de amor. E a ironia é que, no primeiro ano, nossa história não estava funcionando e a Disney estava entrando em pânico. Então, em particular, eles solicitaram o parecer de um famoso escritor, que não vou nomear, e ele lhes enviou um fax com algumas sugestões. E conseguimos uma cópia daquele fax. A lista dizia que deveria haver canções, deveria haver uma canção “Eu posso”, deveria haver uma canção do vilarejo feliz, deveria haver uma história de amor e deveria haver um vilão. Graças a Deus, éramos apenas muito jovens, rebeldes e do contra à época. Aquilo só nos deu mais determinação para provar que você poderia elaborar uma história melhor e um ano depois daquilo, nós realmente conseguimos e foi só para comprovar que contar histórias tem diretrizes, não regras rápidas e rígidas.

Outra coisa fundamental que aprendemos foi gostar do personagem principal. Ingenuamente pensamos: “bem, Woody, em ‘Toy Story’, tem que se tornar generoso no final, e temos que começar de algum lugar. Então vamos fazê-lo egoísta. E foi assim que ficou.

Woody se vira para os outros brinquedos:

– O que vocês pensam que estão fazendo? Fora da cama. Ei, fora da cama!

O Sr. Cabeça de Batata o confrontou.

– Você vai nos obrigar, Woody?

Mas Woody não se deu por vencido.

– Não, ele vai. Slinky? Slink… Slinky! Venha aqui e faça seu trabalho. Está surdo? Eu disse: cuide deles.

O cachorro em formato de mola pulou para cima da cama e olhou de Woody para os outros brinquedos:

– Sinto muito, Woody, mas tenho que concordar com eles. Não acho que o que você fez foi certo.

Woody não acreditava no que estava ouvindo:

– O quê? Estou ouvindo direito? Você não acha que eu estava certo? Quem disse que seu trabalho era pensar, Salsichão?

Como você torna um personagem egoísta simpático? Percebemos que é possível fazê-lo amável, generoso, engraçado, atencioso, desde que seja preenchida uma condição para ele, que é a de ser o brinquedo principal. Isso é aquilo que é realidade, todos nós vivemos a vida condicionalmente. Estamos todos dispostos a jogar pelas regras e seguir em frente com as coisas, desde que certas condições sejam preenchidas. Depois disso, não há mais apostas. Posso ver agora que, mesmo antes de decidir fazer carreira contando histórias, alguns pontos chave que aconteceram em minha juventude como que, de fato, abriram meus olhos para certas coisas sobre histórias.

Em 1986, realmente entendi a noção da história ter um tema. E aquele foi o ano em que restauraram e relançaram “Lawrence da Arábia” e vi aquela coisa sete vezes em um mês. Não conseguia apreendê-lo no todo. Podia apenas dizer que havia um grande design sob ele – em cada instantâneo, cada cena, cada fala. Ainda assim, na superfície parecia apenas estar descrevendo sua linhagem histórica do que acontecera. Mesmo assim, havia algo mais sendo dito. O que exatamente era aquilo? E não foi senão em uma das últimas sessões que vi que a cortina foi levantada para mim. Foi em uma cena na qual ele atravessa o Deserto do Sinai e alcança o Canal de Suez, e, de repente, compreendi.

Na beira do Canal o garoto que acompanha Lawrence grita para o motoqueiro que vem pela estrada do outro lado:

– Ei! Ei! Ei! Ei!

A moto engasga e o motoqueiro diminui até ver as duas figuras em pé olhando para ele.

– Quem é você? – Ele pergunta, mas não obtém resposta. – Quem é você?

Aquele era o tema [do filme]: quem é você? Ali estavam todos aqueles eventos e diálogos aparentemente dispares que apenas contavam cronologicamente a história dele, mas subjacente havia uma constante, uma diretriz, um mapa do caminho. Tudo que Lawrence fez naquele filme foi uma tentativa de descobrir qual era seu lugar no mundo. Um tema forte está sempre circulando por uma história bem contada.

Quando eu tinha cinco anos, fui apresentado ao que é possivelmente o maior e o principal ingrediente que eu sinto que uma história deve ter, mas raramente é invocado. Foi para ver isso que minha mãe me levou quando eu tinha cinco anos:

Batedor, um coelho  alegre desliza pelo lago congelado:

– Vamos. Está tudo bem. Veja. A água está dura.

Bambi toma coragem e salta para perto do coelho, escorregando e deslizando pelo gelo do lago.

– Iupiii!

O coelho ri para o amigo:

– Divertido, hã, Bambi? Vamos. Levante-se. Assim. Ha ha. Não, não, não.

Eu saí dali com os olhos maravilhados. E acho que esse é o ingrediente mágico, o tempero secreto: poder invocar a maravilha. A maravilha é sincera, é completamente inocente. Não pode ser evocada artificialmente. Para mim, não há capacidade maior do que o dom de outro ser humano dando-lhe essa sensação – mantê-los estáticos por um breve momento e fazê-los render-se à maravilha. Quando canalizada, a confirmação de estar vivo, atinge você quase no nível celular. Quando um artista faz isso a outro artista, é como se você fosse compelido a passar isso adiante. É como um comando dormente que, subitamente, é ativado em você, como um chamado para a Torre do Diabo. Faça a outros o que foi feito a você. As melhores histórias provocam a maravilha.

Quando eu tinha quatro anos, tenho a nítida lembrança de encontrar duas cicatrizes em meu tornozelo e perguntar a meu pai o que eram. E ele me disse que eu tinha um par igual em minha cabeça, mas não podia vê-las por causa de meu cabelo. E me explicou que quando nasci, fui um bebê prematuro, que eu saí muito cedo e não estava totalmente assado; eu estava muito, muito doente. E quando o médico deu uma olhada nessa criança amarela com dentes pretos, ele olhou direto para minha mãe e disse: “Ele não vai viver.” E fiquei no hospital por meses. E muitas transfusões de sangue depois, eu sobrevivi, e isso me fez especial.

Não sei se realmente acredito nisso. Não sei se meus pais realmente acreditam nisso, mas eu não quis discutir. No que quer que fosse que eu me tornasse bom, eu lutaria para ser merecedor da segunda chance que me foi dada.

Depois do ataque da barracuda, Marlin sai do seu esconderijo e encontra o único ovo que não tinha sido devorado, caído no chão do fundo do mar. Ele o apanha com delicadeza, sabendo que se trata de algo frágil e agora único. Ainda chorando, ele faz uma promessa:

– Tudo bem, papai está aqui. Papai pegou você. Eu prometo, nunca vou deixar que nada aconteça a você, Nemo.

E essa foi a primeira lição sobre histórias que aprendi. Use o que você conhece. Extraia disso. Nem sempre significa enredo ou fato. Significa capturar uma verdade de sua experiência, expressar valores que você sente pessoalmente dentro de seu âmago. E isso foi o que finalmente me levou a falar com vocês aqui no TEDTalk hoje. Obrigado.

Fonte: TED

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s