Journal : invocação


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Naquela manhã fria, eu estava voltado para casa com um saco de pão nos braços e os pensamentos perdidos pela rua vazia, quando percebi alguém me seguindo.

Minha primeira reação foi surpresa, não é sempre que isso acontece, embora uma presença estranha não fosse nada com que eu não estivesse acostumado. Então surgiu a curiosidade. Quem seria? O que ela queria? Diminui os passos deixando com que se aproximasse. Com a proximidade surgiu um pouco mais de clareza. Era um homem negro, sua idade era algo indefinido, mas seus olhos eram sábios e seu físico exemplar.

Tentei descobrir de onde ele vinha, primeiro o confundi com um dos nômades do Deserto dos Ossos, mas ele carregava em si um porte nobre que o destacaria daquele povo rude. Era treinado nos modos da corte do Império, mas sua figura não encaixava entre allarini ou rentari. Era um estrangeiro. Um príncipe de outras terras.

Depois de um tempo vendo seu caminhar, a forma como observava a paisagem, as poucas e queridas jóias que ele tratava com tanto zelo, comecei a desconfiar que ele fosse um ommoe, um príncipe negro, vindo da outra margem do Lot. Precisei ter paciência. O mais comum, quando um personagem surge assim é que ele te encontre trabalhando, mas não era o caso. O príncipe omoe tinha me encontrado em trânsito, com as mãos ocupadas e nada além dos meus pensamentos para investiga-lo.

Queria saber o seu nome, mas algo nele resistia a essa pergunta. Havia atravessado o Lot a muitos anos, para viver na corte do Império. Eu podia ver em suas mãos calejadas que se tratava de um homem de ação, mas seu aspecto contemplativo cairia bem a um filósofo. Um homem estudado, isso era certo, e que escolhia bem as palavras. A fama de seu povo no manuseio de metais atrairia a curiosidade do Imperador em pessoa. Seria um conselheiro ou um acompanhante? Talvez estivesse mais ligado ao príncipe herdeiro do que ao seu pai. Teria então quase vinte anos.

O ommoe tinha o cabelo crespo, não muito curto, o que chamaria atenção entre os cortes militares comuns entre os allarini. Acostumado com temperaturas muito mais altas, se vestiria com roupas grossas, não rejeitando uma boa capa ou um chacecol grosso.

Queria ouvir sua voz, mas algo em seu sorriso transmitia grande paz de espírito. Era um protetor, certamente,um guia. Procurei no meu parco vocabulário ommoe como deveria chama-lo. “Qual é o seu nome?” disse em voz alta. Mas ele não me deu resposta. Ainda era cedo para isso.

Nos despedimos perto de casa. Ele esperou até que eu dobrasse a esquina e o perdesse de vista. A sua imagem seguiria clara por um instante e então desapareceria entre os cumprimentos dados aos vizinhos. Quando pude descreve-lo, o tinha esquecido. Ainda lembrava da sua presença, mas a imagem que vinha tão forte, agora era só uma pequena lembrança.

Não era a primeira vez que um personagem me encontrava na rua, certamente não seria a última. As vezes eles entram pela porta e colocam a mão no meu ombro com um pedido: “conte a minha história“. Eu me sento e obedeço. As vezes eles me perseguem por um tempo em um silêncio tímido, até que eu ganhe a sua confiança e ele possa me dizer o seu nome. E como um feiticeiro que captura um demônio, eu o escrevo em meu pequeno livro de invocações, para proclamar meu poder sobre sua vida. As vezes me iludo achando que eu os controlo, em outras fico com essa estranha sensação de estar sendo guiado em uma direção inevitável. No fundo não importa. Estamos enlaçados no mesmo feitiço e o final seria inesperado.

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