Journal : Como lidar com o bloqueio criativo


Capela Sistina (Detalhe), Michelangelo.

Capela Sistina (Detalhe), Michelangelo.

Desconfio do autor que, tendo feito das letras sua rotina, diga não ter enfrentado a página em branco. Desconfio daquele que se gabe de ser prolifico, de que basta se sentar diante da página para preenchê-la de uma centena de obras primas e que não tenha conhecido o desespero que é a muralha de papel que, em branco, gargalha da sua cara. Tenho aqui minhas razões para desconfiar deste discurso.

Uma delas é entender a falha da lógica ao acreditar que a página em branco surge da falta de ideias. Mesmo que eu trabalhasse dia e noite chafurdado no lamaçal de pensamentos, eu levaria décadas para escrever todas as ideias acumuladas na minha lista de tarefas. Mesmo que hoje eu não pudesse ter mais nenhum pensamento criativo, o que já tenho como certo em meus planos seriam suficientes para que não houvessem páginas em branco por muitos anos, mas não é a falta de ideias que aterroriza o autor. Pelo contrário, muitas vezes a avalanche de ideias é o suficiente para sufocá-lo em silêncio.

A página em branco nasce da inércia. Do instante que leva entre tomar distância e pegar impulso. Aquele momento em que o corpo vacila na sua capacidade de desafiar a gravidade. Um pequeno intervalo que dura um instante ou uma vida, matando mais do que o tombo que vêm logo adiante. A página em branco é, sobretudo, uma covardia. Uma porta que permanece encostada, servindo de barreira intransponível entre seus pensamentos e a folha. Um alerta sobre o monstro que se materializará ao atravessar o batente. Não é uma ausência, nem um vazio, ao contrário, é uma certeza na magia que se segue e que não trará de volta a palavra lançada.

Quem se gaba de jamais ter enfrentado esse demônio, quem se afirma campeão de seus próprios medos, já deixou de ser Homem, já se curvou a sua vontade, deixando as portas abertas para os quasímodos do pensamento, todos os seres mutantes que andam por ai sem forma, manquejando suas falhas. Um autor sem filtro entre o que pode e o que deve ser escrito, é um autor pela metade.

A página em branco, aflitiva e debochada, faz troça de nossa capacidade de vencê-la, recusando a ideia indigna, deixando-a fermentar em nossas mentes como um vinho que descansa. Parte da experiência de um autor é saber quando servir o cálice antes dele se tornar vinagre.

Quantidade e qualidade, salvo alguns poucos gênios que surgiram nesse mundo, não costumam caminhar juntos. A página em branco é o oxigênio que renova a vida de um lago turbulento enquanto suas ideias nadam ansiosas para saltar para o barco. Então respire, lute contra a ansiedade e tome sua distância. Não faça da sua ideia um natimorto.

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