Conto : O gigante caído (trecho)


Milvbruck

O vento trazia o barulho da batalha que acontecia a poucos metros dali. Homens agonizavam e morriam enquanto espadas encontravam escudos, lanças atravessavam carne e cavalos tombavam em uma nuvem de poeira e sangue. Lenna permanecia parada no meio do campo semi-arado, como se a qualquer momento seu pai pudesse irromper da linha das árvores, com um sorriso no rosto, uma bandagem na testa e muitas aventuras para contar antes de coloca-la na cama. Mas seu pai não apareceu e a batalha não terminou.

– Vamos Lenna. – Ward falou mal humorado, como se os homens que morriam a alguns passos dali não lhe importassem. – Não chegamos nem na metade do trabalho!

Ward era três anos mais velho do que Lenna, pelo menos uma cabeça mais alto do que a irmã e tão magro quanto ela. Ambos tinham herdado os cabelos castanhos claros do pai, embora Ward tivesse os olhos verdes de sua mãe. Eram jovens demais para viver sozinhos, mas a idade havia lhes poupado da guerra e os condenado a terra, que lutavam para arar antes do inicio das chuvas.

Eles sabiam pelo som da batalha que os soldados do Império e os dhäeni rebeldes continuavam lutando pelo controle do rio. A guerra nunca tinha chegado tão perto de sua casa antes. Ao invés de temer as conseqüências de ter soldados armados se estripando a poucos passos de si, Lenna não podia deixar de alimentar um pouco de esperança em ver o pai que a tinha deixado quando se juntou ao exército para defender as leis do Império. Era um fiapo tolo de fé acreditar que justo ele seria enviado para aquela ponte. Depois de tantos meses, mesmo um fio era o suficiente.

Lenna balançou a cabeça para se livrar do pensamento em seu pai e voltou a ajudar o irmão com o imenso arado. Uma grande lâmina de metal que cavava sulcos na terra onde as sementes teriam que ser plantadas. Antes tinham uma bela mula para ajuda-los naquele trabalho, mas, assim como o seu pai, ela fora levada pelo exército do imperador. Os dhäeni estavam atacando. Não havia mais nada a fazer, exceto se defender com tudo aquilo do que eles podiam dispor.

A garota assistiu enquanto ele amarrava a grande mochila nas costas de sua mula e montava para se juntar a fileira de soldados. O exército vinha recrutando qualquer homem saudável àquela altura, prova de que a guerra estava sendo travada ao limite. Seu irmão tinha ficado em silêncio o tempo todo, ouvindo seus últimos conselhos.

– Cuide da sua irmã e não esqueça do plantio. A guerra não vai durar para sempre e quando acabar, o povo ainda vai estar com fome. – Lenna ouviu seu pai falando rápido com seu irmão, como se a sua partida não fosse importante.

Ward preferia ter ido no lugar do seu pai, mas ainda era jovem e não havia feito seus juramentos. Não era mais do que uma criança pelas leis do Império e não podia dispor da sua vida, como um soldado de verdade.

– Eu posso lutar! – Seu irmão insistiu ao lado da mula, segurando um forcado como se fosse uma lança. Seu pai permaneceu sério enquanto ele continuava. – Nenhum dhäen vai tomar as nossas terras.

Seu pai viu as lágrimas nos olhos do garoto, e por um instante vacilou, temendo que sua própria voz falhasse ao se despedir dos filhos. Podia ver que Lenna não tinha vergonha de esconder o pranto que escorria cavando sulcos pela poeira em sua bochecha.

– Não é com os dhäeni que eu estou preocupado, filho. Fique em casa e semeie o campo. Cuide de sua irmã até eu voltar.

A mula começou a andar, seguindo a passada dos animais e homens ao seu redor. Uma trupe suja, vestindo pedaços do uniforme do Império, no geral retirados de soldados mortos e remendados da melhor forma possível. Agricultores e criadores de porcos, com somente uma ideia do treinamento militar e que seriam misturados com os soldados de verdade para dar volume e morrer.

– Quando? – Ward ignorou a lágrima que rompeu a barreira de suas forças e gritou. – Quando o senhor vai voltar?

Seu pai tentou parar a mula para responder, mas o animal se recusou. Não era uma boa montaria, mas já que seria espoliada pelo exército, talvez se ele a conduzisse pudesse trazê-la de volta.

– Antes do dia do seu juramento. Prometo. – Ele gritou a resposta enquanto a mula continuava se afastando.

Então se foi. A linha dos homens seguiu logo atrás dele. Um povo pobre e sem expectativa a quem tinha sido prometido dois templos de cobre por semana de trabalho. Dois templos de cobre, que pagariam por suas vidas e pela honra de morrer pelo Império. Uma tarefa que eles fariam, misturando orgulho e medo da morte.

•••

N.d.A.: Este conto está sendo escrito como parte de uma coletânea de contos fantásticos organizados por um grupo do facebook. Apesar de não ter certeza de que ele vá preencher os requisitos básicos para entrar na coletânea (o limite de palavras é meio pequeno para mim) ele deve estar pronto até o fim de julho, então, aguardem por novidades.

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3 Respostas para “Conto : O gigante caído (trecho)

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