Cenário : 13 Leis narrativas para a magia do império


Fire Mage by uildrim

Fire Mage by uildrim

Já falamos sobre a magia em Qaran quando respondemos as 12 questões sobre uso da Magia no Império, mas a ideia para esse novo artigo já me perseguia a algum tempo. É importante para todo cenário fantástico que o sistema mágico faça sentido, de forma que um praticante não se torne uma muleta dentro da história. Pensando nisso, comecei a desenvolver um sistema para Qaran, mas não fazia sentido um sistema numérico que desse tabelas de valores e pontos como um jogo de RPG. A história não joga dados. O sistema em que eu pensei era mais como uma estrutura narrativa que tornasse a magia algo mais claro. Desta forma desenvolvi as 13 Leis da Magia, que aqui eu apresentei intercaladas com um conto de Bellani, uma feiticeira, em busca de um antigo segredo.

1.   Toda magia é uma forma de arte.

A manipulação da magia em nível etéreo precisa ser representada em nível material também, demonstrando que a magia não vem pronta e requer trabalho. Cantos, orações, danças, desenhos, artesanatos, poções. Vincular a magia com algum elemento artístico ajuda no entendimento de que a magia é um trabalho complexo. Um mago possui algumas formulas mágicas, assim como um cozinheiro possui algumas receitas. Ele conhece a teoria geral por trás de toda magia, mas se especializa em apenas alguns “pratos”. As magias mais poderosas são as mais complicadas e levam mais tempo para aprender. Um mago possui um número limitado de magias e para aprender novas fórmulas precisa de treino e prática. Usar as formulas de outros magos é mais rápido do que desenvolver suas próprias formulas, assim como desenvolver uma receita demora mais do que seguir uma receita pronta. Sempre existe, porém o momento em que você precisa colocar tudo na prática para saber se entendeu a fórmula direito.

Bellani nunca tinha feito aquilo antes, mas tinha estudado os livros a fundo e estava confiante. Havia testado cada etapa da fórmula em separado através dos últimos meses, agora tinha chegado a hora de testá-la por inteiro. Invocar uma entidade como aquela era um feitiço avançado mesmo para os rígidos padrões do Conselho de Tallemar, mas não se mudava história sem forçar os limites. No chão do quarto tinha desenhado círculo de proteção complexo, que invocava o nome e a proteção de entidades que a maioria das pessoas preferia não conhecer e que descreviam o caminho pelo qual a energia etérea deveria fluir para o mundo de forma a não matar seu invocador. Bellani repetiu o mesmo símbolo no teto, enquanto pronunciava os cânticos de convocação. O ar ao seu redor parecia vibrar ao som da sua voz, enquanto a temperatura lentamente se elevava. A feiticeira sentiu uma gota de suor escorrendo pela sua sobrancelha, mas a ignorou, sabendo que a distração poderia colocar tudo a perder. O ritual era complexo e envolvia varias magias menores. O círculo de confinamento, as runas de proteção, o enfraquecimento da barreira, e a invocação da criatura certa. Cada detalhe precisava ser planejado ou Bellani não sobreviveria para tentar de novo.

2.   Magia é uma fórmula exata com resultados imprevisíveis

A execução de uma magia é um aprendizado que leva anos de estudo. Fórmulas mágicas tem precisão milimétrica e isso precisa ficar claro cada vez que o mago executar a magia. Qualquer variação de ambiente, qualquer postura errada, ou mudança de material, deve influenciar no resultado da magia. Para demonstrar isso é preciso que as vezes a magia falhe. A falha é tão importante quanto o acerto na narração de uma história envolvendo a magia.

Vinha se preparando para aquele dia a anos. O aprendizado daquela fórmula a obrigara a mergulhar em antigos estudos sobre projeção astral e outros planos. Bellani quase havia desistido quando ficou claro que não encontraria a madeira certa para produzir carvão, mas seu irmão havia lhe trazido um antigo tomo que recomendava um substituto em uma fórmula completamente diferente e Bellani resolveu que valia a pena tentar. No processo até ali havia aprendido a meditar por vinte dias sem comer ou beber, a transformar cerveja barata em um óleo refinado que atraía uma espécie específica de abelhas e a expulsar espíritos elementais de um campo de trigo. Nada daquilo seria feito naquele dia, mas o conhecimento mágico caminhava em espirais. Ela verificou mais uma vez cada fórmula da mandala, pronunciou os nomes em voz alta para ter certeza de que não tinha feito nada errado e redesenhou dois signos até se convencer de que eles estavam legíveis, expirou todo o ar de seus pulmões e limpou a testa, deixando sem querer uma marca suja de carvão em sua fronte. Fechou os olhos e respirou normalmente, tentando se livrar da tensão.

3.   Toda magia necessita de tempo de mentalização

A magia nunca será instantânea. Existe um tempo e um processo para que a magia surja. A magia não explode, ela vaza de forma progressiva. Um mago precisa estar preparado para executá-la de forma controlada. Esse preparo exige concentração. Com o tempo e a repetição da magia a concentração pode se tornar quase que automática, mas nunca instantânea. Por melhor que seja o cozinheiro, um bolo sempre leva o mesmo tempo para assar.

A feiticeira acendeu as quatro velas de cera de abelha e se sentou na ponta da mandala, sentindo o cheiro adocicado preenchendo o ar. Tirou do bolso uma pequena escultura de madeira no formato de um bode e a faca ritual que deixou ao lado do braseiro de cobre. Abriu a camisa até o umbigo, amarrando as mangas em sua cintura e fechou os olhos, tentando apagar de sua mente todas as distrações. Passou a invocar imagens em uma ordem específica nas paredes de sua consciência, escrevendo-as com um dedo invisível em sua alma e imaginou um ponto de luz, menor do que um grão de areia que nascia no centro da mandala. O ponto se tornaria um feixe, tão estreito quanto um fio de cabelo, ligando a mandala de cima com a mandala de baixo e então se alargava, lentamente. Pálido como a luz da lua, até ocupar todo o círculo desenhado no chão. Bellani se concentrou nesse tubo invisível por um bom tempo, examinando sua superfície com a mente, para ter certeza de que ele fosse completamente liso e uniforme e só depois disso, passou a repetir os cantos conforme mandava a fórmula do livro.

4.   Nada se cria, tudo se transforma

A teoria mágica diz que o mago canaliza élan através do seu corpo para alterar a realidade. Para efeitos de narração a mágica precisa ter origem em algum elemento material. Ex. O mago pega terra aos seus pés; pinga seu sangue no chão; amassa um pergaminho com o nome da vítima, etc. Qualquer elemento que torne a sua realização visual.

Confiante de que tudo estava em seu lugar, abriu os olhos e viu o quarto exatamente como o tinha deixado. Sabia que a muralha de luz estava ali a sua frente, mas não podia vê-la exceto com o olho da mente. Com calma, para não interromper a cadência de seus cantos, Bellani pegou uma faca ao seu lado e com ela abriu um talho em sua mão esquerda. Do punho fechado o sangue escorreu em uma cascata negra que a feiticeira estendeu a sua frente, para ser aparado sobre o braseiro de cobre; pingando sobre as brasas com um chiado e soltando um odor adocicado. Com a ponta dos dedos Bellani usou seu sangue para pintar o próprio corpo com runas cujo significado real ela apenas deduzia. Estendeu a mão ferida para a vela acesa a sua frente e a manteve ali, lutando para ignorar a agonia enquanto sua carne queimava. Se não fosse capaz de suportar a dor, a magia teria falhado, mas Bellani não estava disposta a fraquejar tão cedo.

5.   Toda magia é uma entidade viva

Élan é a energia que corre através dos mundos e os magos se relacionam com ela sempre como se estivessem se tratando de alguma coisa viva. Algum animal antigo e selvagem que eles precisam domesticar. Como todo animal indócil, sua reação nem sempre é previsível. Mesmo que o mago cumpra com todos os rituais corretamente, existe a chance de que a magia simplesmente se negue a funcionar e que, se debatendo fora de controle, acabe atingindo o próprio mago. A magia precisa ter uma aparência orgânica e mutável. A energia flui através dos mundos, estreitando a barreira que existe entre os planos. Criaturas estranhas são vislumbradas nas sombras, ou aguardando no canto dos olhos. Zumbidos de insetos que não estão lá. Rangidos de tábuas como um barco velho. Os sentidos se movimentam, tirando a realidade do que deveria ser natural.

A luz das velas pareceu oscilar ao seu redor, com o som de um vento invisível que a feiticeira não podia sentir. Seu corpo vibrava, transpassado pela energia dos mundos que se infiltrava sob sua pele como uma febre. Ondas de calor e de frio se intercalavam, enquanto seu coração lutava para bombear seu sangue. Bellani torcia os dedos em gestos que pareciam sincronizados com as palavras que saiam de seus lábios. Se gaguejasse àquele momento seria feita em pedaços, mas a o treino constante teria feito seu corpo repetir os gestos mesmo que ela estivesse dormindo. Junto com o barulho do vento, Bellani ouviu o som de cascos ao seu redor, em um trotar violento e temeu que pudesse ser esmagada. Precisava controlar o medo, via coisas se movendo pelas sombras do quarto, espreitando de florestas que só existiam em sua imaginação. Bellani temeu que algo se aproveitasse da fragilidade da barreira entre os planos para saltar para aquele mundo, ou para arrastá-la para o inferno. A partir daquele ponto não podia mais desistir. Precisava concluir a magia, ou estaria condenada. As sombras se retorciam para agarrá-la como se soubessem que ela estava prestes a cair.

6.   Toda magia cobra seu preço em élan

Élan é a cola que mantém o mundo coeso. É a energia que corre em nosso corpo, é a matéria primordial de toda existência. Élan é o potencial que existe em tudo e ao executar um efeito mágico o mago o consome, deixando um rastro de morte. Plantas morrem, animais fogem do local e uma tremenda exaustão pode consumir o corpo do mágico, tornando-o letárgico ou mesmo obrigando-o a descansar. Para quem sabe procurar, existem sinais claros de que magia foi feita no local e as vezes esses sinais demoram muito tempo para desaparecer.

A energia fluiu de Bellani como uma onda de prazer. A feiticeira já tinha experimentado alguns dos melhores amantes daquele mundo e de outros, mas nada se assemelhava ao que estava sentindo naquele momento. Escapava pela sua respiração. Uma nuvem densa que carregava consigo parte de sua própria alma e ao inspirar novamente, Bellani sentia-se sufocar por um mar de agonia. Ouviu a cacofonia dos sons que surgiram do outro mundo silenciando ao seu redor enquanto o quarto inteiro parecia congelar. Com orgulho e terror ela viu as chamas das velas lutando para permanecer acesas, tornando-se pouco mais do que uma pequena gota de orvalho azul presa ao pavio ensebado. O mundo revelou-se obscuro como a noite em um campo de batalha, enquanto os feridos agonizam ao seu redor.

7.   Toda magia pode ser capturada por um tempo, mas se dilui

Um mago pode capturar uma magia dentro de um objeto ou símbolo. Não qualquer magia, não qualquer objeto. Conhecer a magia não é o suficiente para captura-la dentro de um objeto. Esses encantamentos são magias específicas, que precisam ser aprendidas em separado. Uma oração para afastar um demônio não é a mesma coisa de um círculo de proteção para mantê-lo afastado. São magias diferentes com efeitos similares. Com o tempo, a magia de um objeto se desfaz. Em termos teóricos, a élan se dilui no ar. Em termos narrativos, o objeto se deteriora de alguma maneira.

Bellani cruzou os dedões e fechou as mãos em punho sobre o peito, enquanto interrompia os cantos. A luz das velas ainda lutava para iluminar o ambiente, mas ela podia ver uma massa disforme que se remexia no centro da mandala. Bellani sentiu a língua seca e movimentou-a na boca, em busca de saliva, sabendo que não podia hesitar. Chamou pela criatura em uma língua quase esquecida, que a centenas de anos não era falada naquele plano e viu quando a forma parou de se mover, ganhando contornos mais claros. Bastava um vislumbre da sua verdadeira face para levar qualquer um a loucura e Bellani lutava para se proteger daquele destino. A criatura pareceu encolher a medida em que se tornava mais sólida e Bellani moveu ligeiramente a posição de seus dedos, chamando pela labareda das velas como uma amante carinhosa. As chamas voltaram a crescer. Bellani sentia a tensão em cada músculo do seu corpo. Sabia que a criatura farejava sua mente àquele instante, por isso a tinha protegido anteriormente, deixando exposto apenas o que precisava ser visto. As trevas recuaram. O sino de uma torre tocava em algum lugar distante. Em pé, no centro da mandala, uma criança esperava de pé, com os dedos das mãos cruzados delicadamente diante da virilha. Bellani não soube dizer se era um menino, ou uma menina.

“Deixe-me ir, Bellani.” A criatura falou com a voz de um homem adulto. “Deixe-me ir e eu lhe darei o segredo da vida eterna.” Bellani esperava que a criatura barganhasse, mas não a deixaria ir. Se desfizesse o círculo, libertaria a entidade de sua prisão e acabaria morta, enquanto a criatura vagaria solta pelo mundo. A criança bateu o pé no chão gritando que queria sair, mas Bellani continuou negando. Via o pó do carvão se soltando da madeira, como uma poeira que se espalhava pelo chão.

“Responda-me uma pergunta, ser do abismo, e volte para sua morada.” Bellani insistiu. Mil desejos podiam ser atendidos por uma criatura como aquela, mas todos viriam com um preço. Uma resposta e nada mais. Era com isso que tinha se prometido. A criança sorriu para ela, com uma boca assustadoramente cheia de dentes afiados, como um peixe de águas profundas. “Uma pergunta e nada mais.” A criatura respondeu e deu um passo até a borda da mandala, deslizando os pés descalços pelo desenho, para testar a sua força. Bellani sabia que os escudos não durariam muito tempo, precisava ser rápida. “Uma pergunta e você pode ir.”

8.   Toda magia tem a duração da concentração do mago

Toda magia dura apenas enquanto o mago está concentrado em sua realização e desaparece assim que essa concentração é interrompida. Enquanto se concentra, o mago se encontra vulnerável. A exceção fica na magia que é aprisionada em um elemento material, como vimos no item anterior.

A criatura concordou. Bellani apertou novamente os punhos contra o peito nu, concentrando-se nos sinais de proteção que tinha desenhado em seu espírito. Estavam todos onde ela os tinha deixado, queimando como labaredas vivas sob sua pele. A criança andava de um lado para o outro, procurando uma falha em sua mandala, mas Bellani havia verificado tudo duas vezes e estava confiante do que havia feito. Precisava ser rápida, antes que a mandala se desfizesse e a criatura se libertasse. “Onde foi escondido o Livro dos Reis?” Era a única pergunta que lhe interessava. Bellani estava a procura de uma lenda, mas a criatura vacilou e ela soube que estava no caminho certo. “Deixe-me ir, Bellani!” A criança gritou para ela. A boca imensa e cheia de dentes, exalando um terrível hálito de peixe. Bellani estremeceu. Podia sentir a barreira de luz que envolvia a mandala trincar, como se atingida por um aríete. A feiticeira se encheu de coragem e manteve sua serenidade. “Não! Responda agora.”

“Não!” a criatura bateu o pé como uma criança birrenta. “Não!” Ela repetiu o gesto, fazendo as tábuas sob seus pés estremecerem. “Não!” As vigas sobre a cabeça de Bellani derrubaram poeira e lascas. A criatura sorriu para ela, encontrando uma brecha. Bellani deveria ter escolhido um aposento de pedra, tinha cometido um erro. “Fale agora, maldito, ou volte para o abismo de onde veio!”. A feiticeira ordenou, mas a criatura se recusava, correndo pelo pequeno espaço, chocando-se contra a parede invisível, como um inseto preso dentro de uma lamparina. Tudo ao seu redor estremecia. A mandala de carvão se esfarelava a cada golpe. Bellani sabia o risco que estava correndo, mas não teria aquela chance de novo. “Onde foi escondido o Livro dos Reis?” Ela perguntou novamente, mas a criatura tampou os ouvidos, cantando uma música infantil de quando Bellani ainda era uma criança. Tinha sido derrotada. Ela sabia que não conseguiria sua resposta. A criatura bateu contra o círculo de proteção e arranhou o ar vazio, com unhas que pareciam prolongamento dos seus ossos. Bellani viu enquanto ela se esfregava e lambia os lábios se insinuando a sua frente e verificou outra vez as proteções em sua mente, para que não fosse arrastada para o inferno. “Não!” A criatura bateu a cabeça contra a muralha invisível e Bellani viu o círculo de carvão se apagar e sua proteção ceder. A criatura sorriu vitoriosa e Bellani estremeceu. Tinha perdido completamente o controle.

9.   Os pontos fracos da magia

A magia precisa ter limitadores claros. O ferro dispersa a magia. Ela não pode ser executada sem élan. Ela exaure o mágico e cobra seu preço sempre que é executada. Ela leva tempo. Ela causa sofrimento, doença e loucura. Ela é fiscalizada por todo tipo de ordens mágicas e atraí todo tipo de problemas e seres perigosos. Ser um mago é uma luta diária e isso tem que ficar claro. O mago vive uma maldição em troca desse conhecimento. Ele pode abraçar essa maldição ou lutar contra ela. O fim será sempre trágico. É preciso humanizar a magia de forma que o mago não se torne um deus dentro da história.

A forma da criança se desfez assim que ela pisou para fora do círculo. Bellani tinha cometido um grande erro e estava prestes a pagar caro por ele. A criatura voltava a forma indefinida que tinha saído das trevas e Bellani voltou a balbuciar as formulas de proteção para que não fosse levada a loucura. “Quem é você para ordenar àquele que já foi servido por heróis e deuses?” Bellani viu o vislumbre de mil olhos amarelados brotando das trevas a sua frente e uma boca imensa que se abria prestes a engoli-la. Gritou de olhos fechados, tentando se concentrar nas palavras que esconderiam a forma da loucura, mas era tarde, sua concentração tinha se rompido. Sua energia se esgotara. A criatura avançou para acabar com a sua vida. De olhos fechados a feiticeira podia senti-la avançando contra si, como uma onda que empurra o rochedo, mas assim como a pedra resiste ao mar, as runas de proteção pintadas em sangue no seu corpo resistiram ao primeiro ataque. A criatura se surpreendeu. Bellani estendeu a mão e encontrou no chão o cabo da adaga ritual e a imagem em madeira do bode. A criatura entendeu o que estava acontecendo e gritou uma maldição, mas era tarde. Bellani jogou a pequena estátua de madeira nas brasas e invocou as chamas, com a mesma voz sedutora que havia usado antes. A criatura golpeou-a com toda força, em um ataque desesperado que Bellani pode sentir mesmo através de suas barreiras, e então se retorceu pelo chão, pedindo por clemência. Bellani não teve nenhuma. A entidade gritou e silvou e então silenciou. A feiticeira ficou onde estava, tremendo, repetindo as mesmas palavras de proteção que vinha ensaiando nos últimos meses, sem coragem para abrir os olhos.

10. Toda magia depois de executada deixa um arresto residual

Além do consumo da élan local, a magia deixa um arresto residual que pode variar. Cheiros estranhos, bolsões de temperatura, atração ou repulsão de determinadas criaturas, dilatação ou compressão do tempo, mudanças climáticas. O mundo se torna um pouco mais imprevisível como efeito de uma magica. É o caos e a entropia reassumindo o controle da energia que o mago ousou controlar.

Sentiu o cheiro de flores se espalhando pelo quarto. E gotas de orvalho que pingavam sobre seu rosto. Em algum lugar remoto o sino de uma torre badalou uma última vez e só então Bellani relaxou, abriu os olhos e procurou pelo perigo ao seu redor. Estava sozinha. A luz das velas estavam quase no final, mas iluminavam com ainda mais força o mundo ao seu redor. O cheiro de flores ficou tão forte que Bellani não podia nem respirar. Sentiu seu estômago revirar e debruçou-se para frente, enquanto seu corpo se revoltava. Derramou pelo chão uma bile negra que se esparramou pela madeira como o pedaço de algo vivo. A feiticeira lamentou. Sentiu as lágrimas nascendo em seus olhos e um aperto em seu coração. A ânsia voltou em ondas, até que Bellani sentiu algo se mover dentro da sua garganta. Tentou gritar, mas a coisa a impediu. Sentia patas que se apoiavam na carne de sua garganta para escalar para a boca e o gosto peculiar da maresia. Bellani gemeu tentando gritar e um pequeno caranguejo negro caiu no chão e correu para as sombras. Bellani não viu mais nada.

11. Toda magia cobra um preço perigoso do mago

A magia sempre deve ser executada com medo e perigo. Ao executar uma magia, o mago está manipulando uma energia a qual não deveria ter acesso e deve fazê-lo com o cuidado com quem trabalha com uma arma biológica. Mesmo os efeitos mais simples, devem ser manipulados com uma boa dose de atenção e tensão. Executar uma magia é como uma roleta russa e essa sensação de perigo precisa sempre transparecer. A magia precisa ser exaustiva, dolorosa, punitiva. Contrariar as leis naturais precisa cobrar um preço físico do mago, como uma doença e com o tempo essa marca vai se acentuando.

Acordou em sua cama, sem ideia de como tinha chegado lá. Seu irmão estava sentado em uma cadeira próxima, lendo algum livro antigo cuja capa ela não pode reconhecer. “Nunca mais faça algo assim sozinha!” ele a repreendeu. Bellani sentia-se exaurida. Queria saber a quanto tempo tinha estado dormindo, mas se surpreendeu ao saber que sete dias tinham se passado. Ela podia ter morrido. “Veja!” Seu irmão caminhou até a cama e pegou seu braço pelo punho, levantando-o para que ela o pudesse ver. Bellani não tinha força para movê-lo. Sua mão estava coberta por ataduras que ele delicadamente começou a desenrolar. Por baixo delas alguém a tinham vestido com uma luva negra. “Não é uma luva, Bellani!” Seu irmão falou. A mão que ela tinha cortado e queimado havia se tornado completamente negra. “Os médicos queriam amputá-la, mas eu os convenci a salvá-la. Não foi fácil, mas não sei se você vai conseguir movê-la novamente.” Bellani chorou, não esperava por aquilo. Sem a mão, seria apenas metade da feiticeira que tinha sido até então. Ela se virou para o canto do quarto e começou a chorar.

12. Toda magia é como uma droga

Depois que se adquire o conhecimento, praticar magia é como qualquer comportamento compulsivo. O efeito mágico possui um clímax que poderia ser comparada ao prazer sexual. Mesmo com todos os perigos para usar esse poder, o mago vai agir como qualquer outro viciado, sempre a procura de uma dose maior, até que por fim a magia o consuma por completo, enlouquecendo-o. O final de todo praticante é trágico, eles procuram a morte quase como se ela fosse redentora de seu sofrimento. O preço que a magia cobra é tanto mental quanto físico, se manifestando como deformidades e doenças. Se um acidente não matar o mago é certo que a loucura ou a doença irá fazê-lo, mas saber disso não o impede de continuar praticando.

Levou mais alguns dias até que Bellani tivesse forças para sair da cama. Apesar da insensibilidade, os dedos de sua mão começaram a responder, embora não perdessem a aparência sombria. Os médicos vinham visita-la todos os dias e lutavam contra aquela doença com todo o seu conhecimento, mundano e místico, era tudo o que podiam fazer. A mente da feiticeira procurava onde tinha errado. Ou o círculo de proteção tinha sido desenhado para um ambiente rígido ou o carvão que havia sido usado como substituto havia falhado. Sem o círculo a criatura estava solta em plenos poderes e era uma questão de tempo até que rompesse as defesas que Bellani havia erguido sobre si mesma. Tão logo colocou-se de pé, começou a examinar seus livros tentando descobrir o que tinha feito errado. A mão ferida a impedia de fazer os gestos corretamente, mas ela continuava tentando. Um dia seu irmão a encontrou no laboratório desenhando uma mandala de carvão no chão. Podia mover sua mão quase que normalmente, embora ainda mantivesse a mesma coloração negra de antes e sentisse dores terríveis pelas manhãs e ao fim do dia. “Você deve ter ficado louca!” Seu irmão balançou a cabeça. “Eu cometi um erro, não vai acontecer de novo.” Bellani não estava com disposição para discutir e seu irmão sabia que era tolice tentar demove-la de uma ideia. “Eu poderia te impedir ficando aqui.” Ele ameaçou, mas Bellani sabia que ele não faria aquilo. “Você ainda não está forte o suficiente!” Ele insistiu. Era sua última chance, mas Bellani sabia que se esperasse ter a força necessária, nunca mais se arriscaria a fazer aquilo. O círculo estava pronto. Seu irmão caminhou até ela e lhe deu um abraço, implorando para que ela não o fizesse. “Eu consigo fazer isso!” ela prometeu. Seu irmão lhe deu as costas e saiu pela porta, no mesmo instante em que ela acendia as quatro velas ao redor da mandala.

13. A magia não resolve todos os problemas da história

Uma magia nunca, de forma alguma, pode ser usada para resolver um embaraço na história. Se o personagem principal usa magia, ela nunca será a muleta que o fará escapar da morte. Uma mágica só pode aparecer no clímax da história se a história já mostrou o mago usando essa magia antes e mesmo assim, ela nunca resolverá o conflito. Na melhor das hipóteses ganhará tempo, na pior, falhará e tornará o clímax ainda mais difícil. Magia não é uma ferramenta para preguiçosos.

Daquela vez a entidade apareceu como uma velha nua, mas com o mesmo sorriso repleto de dentes afiados. Bellani esperou que ela a reconhecesse, mas tudo o que a criatura fez foi rondar o círculo, como um animal enjaulado. Podia senti-la testando a força da barreira, mas não escaparia tão fácil daquela vez. “Onde está escondido o Livro dos Reis?” Bellani finalmente perguntou e a criatura pareceu se dar conta dela, pela primeira vez. A feiticeira viu a velha se abaixar e mijar no chão, um líquido preto como aquele que Bellani tinha vomitado da outra vez. “Deixe-me ir e eu te digo.”, ela disse, mas a feiticeira não seria tão tola. “Diga-me e eu te deixarei voltar ao seu abismo”. A criatura não queria voltar. Não queria responder. “Não.” Ela voltou a bater o pé, mas daquela vez nada aconteceu. Bellani se permitiu um sorriso vitorioso. A derrota enfureceu a criatura que lutou para se desfazer da aparência mundana, mas Bellani tinha se precavido contra aquilo e reforçado suas proteções. A criatura sentou no chão, abraçada as próprias pernas, indefesa como uma verdadeira velha. Bellani estendeu a mão e agarrou a imagem do bote, deixando-o sobre as brasas. “Abaixo da cidade de prata, abaixo das ruínas de cobre, abaixo do túmulo de ouro. Enterrado tão fundo, que os deuses não podem olhar. É onde está escondido o livro dos reis. Deixe-me ir.” Bellani sentiu pena da criatura, mas já tinha o que precisava. Refez o encantamento para abrir a porta entre os planos e assistiu as velas ofegarem, enquanto a criatura desaparecia. Quando a luz voltou a brilhar, estava novamente sozinha. Seu corpo todo doía e ela sentiu a ânsia voltar, mas estava pronta pra ela. Cuspiu no chão o escarro negro e viu o caranguejo abrir caminho pela sua garganta para fugir pelo quarto, mas daquela vez não desmaiou. Ficou onde estava, imóvel e sem vontade. Nauseada pelo cheiro de flores, ouvindo a canção do sino que tocava lá longe. Olhou para sua mão negra, retorcida como um galho carbonizado e soube que a tinha perdido. Agora já sabia onde procurar. A exaustão a perseguiu, tentando roubar sua consciência, mas ela não queria dormir, embora aquilo não fosse algo que pudesse evitar. Enquanto sua consciência lentamente se perdia, Bellani viu seu irmão se aproximar. “Idiota!” Ouviu ele dizer. “Desta vez, você perderá o braço!”. “Eu sei.” Bellani sentenciou. Nunca mais praticaria magia da mesma forma, mas aquilo não importava. Seria senhora do Livro dos Reis. A magia do mundo ficaria sob seus pés.

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