Entrevista : FLAL 2o Edição


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A FLAL é um evento online, em sua segunda edição, que se propõe a abrir espaço para autores nacionais através de entrevistas e bate-papos online. Tive o prazer de participar pela primeira vez, graças ao convite recebido pela da Editora Crown. Para quem ainda não viu a entrevista, vale a pena visitar a página do evento e saber um pouco mais sobre meu trabalho e o trabalho de outros autores que estão no mercado, suando a camisa.

Biografia:

Diego Guerra é formado em Produção Editorial pela Anhembi Morumbi e em roteiro pela Academia Internacional de Cinema. Trabalha como designer e é fã de literatura fantástica e romances históricos. Passou a infância correndo pelas arvores com amigos imaginários defendendo a terra de invasões alienígenas e portais que se abriam para o inferno. Teve duas opções: tomar remédio tarja preta ou se tornar escritor. Depois de anos escrevendo para não enlouquecer, resolveu publicar para enlouquecer os outros. Pela Editora Draco publicou a fantasia “O Teatro da Ira” (2016) e fechou contrato com a Editora Crown para publicar “O gigante da guerra” (2016), um romance fantástico, e organizar a antologia “Grimdark Brasil: Reinos Sombrios” (2016). Deixa todos os editores malucos com suas megalomanias, mas jura de pé junto que os remédios estão começando a fazer efeito.

Entrevista:

Michelle Paranhos: Você se preocupam com a mensagem transmitida aos seus leitores por sua história? Ou você não pensa nisso ao publicar?

Diego Guerra: Toda história é uma mensagem, escrever é transmiti-la, mas talvez você esteja perguntando se eu tento passar alguma “moral da história” enquanto escrevo. Não, não tento. Tenho algumas intenções fixas ao escrever, no geral algo que me perturba e que eu vou descobrindo enquanto estou escrevendo, mas também não espero que os leitores encontrem essas respostas. Escrever para mim é um movimento de autodescoberta. Se alguém encontrar na história algo que lhes sirva como um pensamento mais aprofundado, eu acho ótimo, mas não fico preocupado com isso enquanto estou escrevendo, até porquê, diferentes pessoas podem ler a mesma história de diferentes modos e a história que eu tinha em minha mente enquanto escrevia, pode não ser a mesma que chegou a sua, quando você começou a ler. Acho isso fantástico.

Sara Marie: Olá, também falando sobre a construção da personalidade do personagem, eu gostaria de saber se isso vem naturalmente na hora da escrita ou se é necessário fazer pesquisas para que a personalidade se encaixe perfeitamente na história?

DG: Existe pesquisa sim. No meu caso a pesquisa é falar com outras pessoas. Conversar com gente diferente, que pense diferente de você e que tenha atitudes bem diferentes das suas. Conhecer as pessoas para entender suas motivações e mecanismos internos é a melhor pesquisa para mim, quando falamos em personalidade. Você também pode estudar um pouco de psicologia, o que ajuda a entender alguns mecanismos mentais, mas seria presunção minha dizer que assim você vai saber quem elas são. De uma forma ou de outra, é bom você conhecer seu personagem antes de começar a escrever, assim sua história vai se definir melhor e você corre um risco menor dele te surpreender e te jogar em um beco sem saída. Eu costumo sentar e escrever tudo o que eu sei sobre o personagem, mas mesmo assim as vezes me pego surpreso com algumas coisas que eu não sabia antes. Essas descobertas podem ajudar ou atrapalhar sua história, então é melhor estar preparado.

Isabela Souza Romani: Tem algum gênero que considera seu favorito? O meu é fantasia, ficção: E você já escreveu sobre ele?

DG: Bom, também gosto de fantasia e ficção [científica] em todos os seus ramos, desde o maravilhoso de Borges, ao weird de Lovecraft, passando pelo fantástico de Tolkien, o sci-fi de Asimov e Clark, etc. Gosto muito dessa literatura que desafia a imaginação humana e a forma como vemos o mundo ao nosso redor. Mesmo nos romances mais naturalistas, o que me atrai mais é o outro ponto de vista. Já tentei escrever de tudo um pouco, ainda escrevo crônicas de vez em quando e já tentei escrever poemas. Minha zona de conforto é a área onde eu mais li, mas eu tento me desafiar as vezes a fazer coisas diferentes, mesmo que não mostre a ninguém. Meu maior fracasso foi na área de contos eróticos, vou demorar a superar esse trauma.

Luciana Do Rocio Mallon: Você teve o apoio de sua família quando falou que gostaria de ser escritor? Se não, como conseguiu mediar o conflito?

DG: Não teve conflito. Escrever é algo que eu sempre fiz, não era uma decisão. No Brasil é muito difícil alguém decidir ser escritor, não existe uma faculdade de escrita criativa por aqui, então você se adapta. Faz letras, faz jornalismo, no meu caso fiz produção editorial pois sempre fui apaixonado por livros e mais tarde fui trabalhar com design e publicidade, pois também sou apaixonado por arte. Escrever sempre foi meu segundo emprego. Mas, claro, sempre tem gente que tenta te fazer desistir. Ouvi varias vezes que eu nunca conseguiria publicar “esse tipo de história” (sou da geração pré Harry Potter, histórias fantásticas não eram nem recebidas pela maiora das editoras, empenhadas em uma “literatura séria”). Uma vez uma ex-namorada, que era formada em letras, me disse que eu tinha talento para escrever, mas que perdia tempo com essas “historinhas”. Acreditei nisso um tempo. Tentei escrever “coisas sérias e intelectuais”, mas no fim eu estava sendo apenas outra pessoa. Hoje eu escrevo para mim. Se alguém mais gostar disso: ótimo! Se não: passar bem.

Paula Lessa: Em que momento percebeu que o seu livro era tão bom para você, quanto para o público?

DG: Segredo de estado: O livro nunca é bom o suficiente para o autor. A gente conhece muito dos alicerces da coisa para dizer que ele é perfeito. Uma obra é um instantâneo de um tempo. Basta uns anos para você começar a querer fazer tudo diferente. Eu sempre escrevi e mostrei para poucas pessoas que (quase) sempre foram muito educadas em dizer que eu escrevia bem e devia continuar fazendo isso, mas achava difícil publicar uma história, eu passava tanto tempo reescrevendo cada paragrafo que no fim perdia o interesse pelo trabalho. A grande mudança, acho, foi quando resolvi publicar meu primeiro livro (O Teatro da Ira) online. A medida em que eu ia escrevendo os capítulos e colocando no ar, fui recebendo comentários de pessoas que eu não conhecia e que não precisavam ser educadas comigo. Daí veio o convite para publicar o livro pela Draco e aqui estamos. Meu próximo livro, está saindo pela Editora Crown e nasceu de uma forma parecida, eu o escrevi para o NaNoWriMo (National Novel Write Month), um desafio que acontece todo ano, com escritores do mundo inteiro, que lutam para escrever um livro de 50 mil palavras em um mês ou menos. Ele não tinha obrigação de ser bom naquela época, só ser completo. Por coincidência, quando o mês acabou, recebi o convite da Crown para apresentar um original e ele era a única coisa que eu tinha mais ou menos pronta, cheio de erros de digitação e furos terríveis na história. Pensei comigo que era melhor enviar aquilo do que não enviar nada. A editora passou a noite toda me mandando perguntas e comentários sobre o livro e na manhã seguinte ela pediu uma reunião. Assinarmos o contrato dias depois. Eu nem acreditei. Então, voltando a sua pergunta: você nunca vai achar que o livro está pronto, então faça o melhor possível e deixe alguém arrancá-lo das suas mãos o quanto antes.

Paula Lessa: Você espera reconhecimento de amigos e familiares, ou basta que o público conheça o seu trabalho como escritor?

DG: Reconhecimento, vindo de quem for, é sempre bom. Você pode escrever para si mesmo o quanto quiser, mas se você publica um livro é porquê quer o reconhecimento do seu trabalho. Amigos e familiares costumam ser os primeiros a reconhecer o seu esforço, mas as vezes por um motivo ou outro – geralmente com boas intenções – podem acabar te desanimando, então você não pode se deixar abater. O público é instável, ele pode te amar hoje e te odiar pelo resto da sua vida e se você depender desses aplausos para continuar criando, pode acabar frustrado. Eu escrevo para mim e sou um leitor bem difícil de agradar, deixo os editores decidirem se o livro vale ou não a pena ser publicado. Reconhecimento é algo que vêm ao longo dos anos e a gente tem que continuar trabalhando duro para encontrá-lo. Basta pensar quantos gênios só foram reconhecidos depois da morte. Faça o seu melhor, espere pelo melhor, mas se ele não chegar, continue tentando. Se você puder se divertir no processo, o reconhecimento vai ser só a cereja de um bolo delicioso.

Sara Marie: Qual foi a cena mais difícil de se escrever?

DG: De toda a minha vida? Tive algumas cenas difíceis, algumas impossíveis. Algumas que eu nem entendi direito até hoje. Enquanto eu escrevia o Gigante da Guerra (Editora Crown), passei por algumas cenas bastante difíceis, do ponto de vista emocional. É um livro que trata sobre a crueldade e a tristeza do ser humano e em algumas cenas isso me machucou terrivelmente. Precisei parar, tomar um ar, esquecer um pouco, para poder continuar em frente. Não foi um livro “fácil” de se escrever, apesar de ter sido escrito rápido e de forma brutal. Provavelmente não o teria escrito com calma, pois acabaria preso na violência psicológica do que estava acontecendo. Já o Teatro da Ira (Editora Draco) tem cenas de uma complexidade estratégica que foram um desafio, era tudo grandioso e cinematográfico e parecia que eu não conseguiria dar conta do recado. Toda cena, no fim, tem seus desafios e as vezes as que parecem ser mais simples são justamente as que dão mais trabalho para sair do papel.

Lari Patricio: Você acha que é importante um autor [não] se prender a um gênero só, ou ele deveria se prender a um único gênero e se aperfeiçoar nele?

DG: Alguns autores usam o nome como definição do gênero onde estão trabalhando, outros escrevem de tudo um pouco e apesar de termos alguma “assinatura” na forma em que ele trabalha os gêneros, cada trabalho é único. Sou da opinião de que você deve escrever de tudo e publicar só o que for bom. Se você quiser que seu nome seja reconhecido dentro de um único gênero, use pseudônimos para os outros gêneros que você quer escrever. É importante o autor ser fiel a ele mesmo e escrever o que considera como verdade. Tentar se guiar pelo que os outros acham é bobagem. Se amanhã eu quiser escrever um romance erótico com vampiros, não vou perder tempo achando se devia ou não fazer isso, vou simplesmente escrever para ver onde posso chegar. Se o mercado vai aceitar isso bem, já é outra questão.

Neyd Montingelli: Você divulga os capítulos que vai escrevendo na internet, antes do livro ficar pronto? Qual a finalidade?

DG: Nem sempre. A primeira vez que eu fiz isso foi com O Teatro da Ira, mas eu era um autor inédito e só estava procurando por algum espaço. Publicar o livro em capítulos quinzenais me ajudou a ter determinação para terminar o livro, coisa que andava me faltando. A medida em que a história foi crescendo e mais pessoas iam lendo a cobrança pelo capítulo seguinte aumentava e foi justamente essa cobrança que me manteve escrevendo e eu pude terminar a história. O que acontece comigo é que as vezes preciso reescrever uma cena diversas vezes até achar que ficou bom e como a história parece empacada naquele ponto, eu acabo desistindo. Publicar em capítulos me ajudou a ter a história completa, pois bom ou ruim, o capítulo da próxima semana tinha que estar pronto, até tinha reescrita, mas havia um limite de tempo para tudo acontecer. Depois da história fechada, veio o processo de reescrita do livro como um todo, de verdade não tenho certeza de quantos tratamentos eu fiz até a publicação, mas não foram poucos. Então, para mim a publicação online teve duas utilidades: divulgação e motivação. Acho que fui bem sucedido nos dois.

Lari Patricio: Qual a sua opinião a respeito de clichês? Um livro bom é aquele completamente original, ou um clichê bem escrito pode ser bom? É possível fugir de clichês?

DG: Não existe livro completamente original. Vou dizer de novo: não existe livro completamente original, mas existem livros que não tem nada de original. O que é diferente. Um clichê é uma ferramenta, o que você faz com isso é o que faz a diferença. As vezes eu fico farto de alguns deles. A profecia do “escolhido” para salvar o mundo/tribo/reino e destruir as forças do mal, por exemplo, é um clichê que já me cansou um pouco, mas ele não faz Matrix ser uma obra ruim, pelo contrário, a história vai girando em torno desse auto reconhecimento de Neo como o escolhido e em suas próprias dúvidas a respeito disso. Também é legal quando você vai construindo um clichê só para desconstruí-lo na sequência, mas não é um trabalho simples, você precisa saber o que está fazendo. Eu prefiro um clichê bem escrito do que uma obra original e chata.

Vivian Santana: Qual a parte de escrever uma história você mais gosta?

DG: Quando acaba. (rs) Não, sério. O inicio de toda história é ótimo. É como um namoro, você vai descobrindo aquela entidade que de repente ocupa todos os seus pensamentos. Você acorda pensando nela, dorme pensando nela e faz qualquer coisa para estar com ela, mesmo que seja por apenas 2 minutinhos, depois do almoço, antes de voltar ao trabalho. De noite, você corre para casa para ficar com ela e recusa sair com os amigos, porquê é preciso ter prioridades e você está apaixonado pela história. Daí vem os problemas, as cenas não se encaixam, os personagens perdem o foco, os capítulos ficam tediosos e vêm a cervejinha com os amigos (só para espairecer). Se você não tomar cuidado, pode acabar se apaixonando por outra história nesse momento, apenas para espantar o tédio. Algumas histórias acabam ai, na falta de interesse do autor, esse promíscuo infiel que não pode ver um rabo de enredo. Se a história sobreviver a essas dificuldades, você a leva ao altar e a noite de núpcias e quando tudo termina você olha para trás e vê toda sua trajetória e sabe que valeu a pena. Então, sim, o bom é quando acaba, mas é delicioso como começa.

Tadeu Montingelli: Qual o critério utilizado para escolha do titulo de seus livros?

DG: Sempre achei dar título uma coisa simples. O título tem que ser atraente, tem que ter algo relacionado com a história e, para mim, tem que ter uma leitura mais metafórica. O Teatro da Ira, por exemplo se refere tanto ao teatro que está sendo apresentado ao rei, quanto a cena de guerra que vêm se desenrolando no livro, cujo personagem principal é dono de uma raiva irracional. É o mesmo com o Gigante da Guerra ou qualquer outro título que eu coloque a mão. Outro detalhe importante: eu escrevo o título do livro junto com a sua sinopse e ele raramente muda. É o primeiro guia da história que eu quero escrever.

Marizeth Maria Pereira: Qual foi o seu maior obstáculo e qual foi o seu ponto principal na largada do seu primeiro lançamento?

DG: Chamas do Império era uma história que me atormentava a muitos e muitos anos e que eu sempre deixava de lado por um motivo ou por outro. Ele só saiu da minha cabeça quando eu, literalmente, não tinha mais para onde ir. Tinha acabado de me separar e passei três meses preso a uma cama por causa de uma perna fraturada. Meu avô tinha falecido e tudo parecia estar dando errado na minha vida, então eu fiquei naquele quarto olhando para o teto, só com essas histórias como companhia. Foi quando o Teatro da Ira deixou de ser um plano futuro e começou a ganhar forma no papel. O Gigante da Guerra era um conto que não fazia sentido na minha cabeça até que eu resolvi escrevê-lo no NaNoWriMo, foi o momento em que ele deixou de ser uma história potencial para ganhar as páginas. O maior obstáculo de qualquer coisa é você se colocar em movimento. Depois que você se propõe a arriscar, tudo vai ficando mais fácil. Você precisa mandar aquela vozinha que diz “hoje não” calar a boca e começar a trabalhar o quanto antes. O resto vai se resolvendo, um problema por vez.

Susana Silva: Como foi o processo de publicação do seu ultimo livro?

DG: Estou no meio do processo de publicação do Gigante da Guerra e tenho que dizer que tem sido maravilhoso trabalhar com a Editora Crown. O livro em si é um desafio, e eu me encontrei diversas vezes desamparado fora da minha zona de conforto, mas a editora acreditou em mim e têm sido muito prestativa em ouvir meus lamentos na madrugada a fora. Ela compreendeu de imediato meus objetivos para esse livro e vêm me ajudando a conduzi-lo de uma forma bastante agradável. De vez em quando rola um chicote, quando pareço empacado em um lugar, mas eu sou um gigante imbecil que as vezes precisa de um incentivo para arrancar uma pedra do seu lugar.

Ivair Gomes: Quando escreve você se fecha para o mundo que o cerca? Se isola?

DG: Sim. Sou absurdamente disperso e preciso fazer um esforço hercúleo para não me distrair e acabar… ESQUILO!

Dom Rodrigo Miranda: Como não dá para viver como escritor, neste país, qual é a sua profissão principal? Você se sente mais à vontade como escritor, ou, na sua profissão principal?

DG: Bom, vamos por partes. Sim você pode viver como escritor no Brasil. Você pode ser jornalista, blogueiro, redator, ghost writer, acadêmico, palestrante, etc. Agora, viver de “vender livros” já é um pouco mais complicado. Algumas pessoas conseguem, mas realmente é uma tarefa para poucos. O cenário tem mudado muito nos últimos anos, existem diversas alternativas para um escritor ganhar dinheiro, desde publicações independentes até presença em feiras e palestras, passando por workshops e etc, mas tudo acontece no seu tempo e o meu ainda está bem longe. O que paga minhas contas hoje em dia é o design. É o meu trabalho oficial (em suas diversas formas) desde antes do bug do milênio e, depois de tanto tempo, é uma segunda pele bastante confortável, mas eu continuo me vendo como escritor, mesmo quando não estou escrevendo. É quem eu sou, não o que eu faço.

Daniela Garcia: Acredita que faltam métodos de divulgação literária no Brasil? Por que? Acha que agentes literários poderiam ajudar?

DG: Não. Métodos de divulgação existem aos montes. O que falta no Brasil é o fortalecimento do mercado editorial e você não vai conseguir fazer isso dando subsídio a publicação das obras. É preciso, antes de mais nada, criar demanda. Focar no jovem e criar leitores. Tive sorte em ter alguns professores que perceberam o quanto eu gostava de ler e escrever e me incentivaram a seguir esse caminho, mas quantos jovens ainda não descobriram esse prazer por falta de incentivo? A internet e as ferramentas que vieram com ela são mais do que o suficiente para se divulgar um autor, o que é preciso pensar agora é como formar o público para esse autor. O potencial de crescimento do Brasil é assustador, o que vem fazendo diversas empresas trazerem suas operações para o país, existe uma profusão de ofertas, o que precisamos agora é aumentar a demanda e vamos fazer isso através da educação, daí teremos espaço e público para todos esses grandes autores que vêm surgindo e acabam perdidos na maré.

Ironi Jaeger: Na opinião de vocês os escritores deveriam ser mais unidos, apoiando um ao outro e não os tratando como concorrentes?

DG: Na minha opinião como escritor, o ser humano deveria ser mais unido, mas isso é utópico. Escrever é uma arte solitária e muitos dos seus praticantes acabam tão enfiados em seus mundos que não conseguem tirar o nariz das próprias páginas. Nós não formamos bandas, como os músicos, nem nos reunimos ao ar livre para desenhar, como os pintores. No máximo nos encontramos em fóruns tumultuados na internet, usando a nossa “arte” como arma o tempo todo. Se devíamos ser mais unidos? Faço minha as palavras de José Saramago, se nós nos respeitássemos já estava de bom tamanho.

Dom Rodrigo Miranda: Você acha que participar de saraus e eventos sociais ajuda a vender o livro, ou, pode queimar o escritor por causa de intrigas e fofocas que podem acontecer?

DG: Tudo pode ajudar e tudo pode queimar, então depende mais de como o autor vai lidar com a exposição e cada caso é um caso. Conversando com outros autores e editores eu sei que a maior parte das vendas das editoras menores acontecem em feiras, palestras e outros eventos sociais. As intrigas são algo bem próprio do ser humano e vão existir na internet, nos eventos sociais ou na fila do pão, resta saber como o autor lida com isso. Ele pode rir e seguir trabalhando, ou pode tomar um pileque e armar um barraco. É mais difícil você esconder quem você é de verdade, do lado de fora do seu mundo literário.

Matheus Gabriel Castro Bezerra: Vocês têm dicas para as pessoas que desejam ser escritores?

DG: Seja comprometido com sua arte. Você pode pedir conselhos a quem você quiser, você pode ouvir a opinião que for, no fim das contas a decisão sobre seu trabalho é só sua, então tome-a com cuidado e coragem. Existem conselhos aos montes por ai e vai existir uma porção de gente para dizer o que você pode e não pode fazer, se você ouvir um vai fatalmente ignorar outro, então faça suas próprias escolhas. Pegue tudo o que te servir e descarte o resto. Encontre o seu próprio caminho, mesmo que seja aos tropeços, errar é uma forma de aprendizado. Seja humilde para reconhecer suas próprias falhas e pretensioso para acreditar nos próprios passos. Se você está procurando algo que funcione para você, não adianta tentar seguir o caminho dos outros. Acima de tudo: comece imediatamente, amanhã já é tarde demais.

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2 Respostas para “Entrevista : FLAL 2o Edição

  1. Ótima entrevista, Diego, parabéns!
    Acabo de te creditar zilhões de pontos de moral… kkk

    Concordo plenamente quanto a parte que fala da educação das pessoas. Os autores não deveriam competir tanto, porque, como você mesmo falou, o potencial de leitores no Brasil é grande.

    É difícil incentivar a leitura nos jovens, que podem acabar se interessando por outras coisas (e são tantas). De qualquer forma, devemos continuar tentando!

    E para nós, escritores, a guerra nunca acaba!

    Abração!

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    • Puxa, obrigado Wagner. Nosso trabalho não é fácil não, mas acho que com dedicação e humildade a gente chega lá. O jovem de hoje lê muito mais do que o jovem da minha época, por exemplo. Acho que o movimento é gradual, mas ascendente. O incentivo a cultura é essencial para a formação de um povo e é ai que a gente vai ter nossa batalha. Sou otimista. Acredito que mesmo que demore nós temos a capacidade de sermos um mercado editorial tão grandes quanto qualquer outro país.

      Para isso, vamos a luta.

      Abraços.

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