Inspiração : Dicas de George R. R. Martin para escritores iniciantes


Episode 6 scene 20

George R. R. Martin, nos bastidores de Game of Thrones

Faz um tempo que eu estou ensaindo publicar a fantástica lista de dicas que o site Game of Thrones Brasil copilou mesclando uma entrevista de George R.R. Martin com questões que o autor respondeu através do seu site. Mas foi organizando a antologia Grimdark Brasil: Reinos Sombrios, para a Editora Crown, que entendi que talvez fossem justamente elas o que faltava para alguns autores darem aquele tempero cinzento em suas histórias, então vamos a elas. O artigo completo é muito maior e dá outras dicas, delas eu separei as que eu achei mais importante para a antologia. Vejamos:

Criando personagens “cinza”

Personagens cinza [nem bons, nem maus] sempre me interessaram mais e eu acho que o mundo está cheio deles. Eu li um monte de História, e eu não achei nenhum personagem puramente heroico ou puramente mau. Você pode escolher os exemplos mais extremos – Hitler era famoso por amar cães. Stalin, Mao, Genghis Khan, os grandes assassinos em massa da história eram todos heroicos sob seus próprios olhos. Por outro lado você pode ler histórias sobre todos os santos da história católica e Madre Teresa ou Gandhi e você pode encontrar coisas e ações sobre eles que eram erradas ou questionáveis , mas que eles fizeram.
Somos todos cinza e eu acho que todos nós temos a capacidade de fazer coisas heroicas e coisas muito egoístas. Eu acho que compreender isso é a chave para você criar personagens que realmente têm alguma profundidade neles. Mesmo quando eu estou escrevendo Theon Greyjoy, que é alguém que muitas pessoas odeiam, eu tenho que tentar ver o mundo através de seus olhos e dar sentido ao que ele faz.

Violência deve ter consequências (então não poupe ninguém!)

Se você pretende escrever sobre guerra no estilo medieval, você precisa mostrar isso – todas essas espadas não são apenas para enfeite. Você deve apresentá-lo honestamente em toda a sua feiura e horror. Batalhas medievais eram excepcionalmente sangrentas, as pessoas basicamente acertavam umas as outras com pedaços grandes, muito afiadas de metal que arrancavam membros e deixavam lesões horríveis e devastadores. Na Batalha de Hastings há relatos contemporâneos de um verdadeiro banho de sangue (estima-se que somando os dois lados haviam 17000 soldados e fora os feridos teriam morrido cerca de 6.000, tudo isso em uma manhã). Eu gosto de mostrar as consequências críveis da guerra, como o homem aleijado, que viveu depois.

Faça Pontos de Vista críveis

Em última análise, todos nós estamos sozinhos no universo – a única pessoa que cada um de nós realmente conhece profundamente, somos nós mesmos. Obviamente, eu nunca fui um anão ou uma princesa, então quando eu estou escrevendo esses personagens eu tenho que tentar e conseguir entrar em sua pele e ver como seria o mundo de sua posição. Nem sempre é fácil.
Uma parte disso pode ser conseguido falando com pessoas reais. Eu me correspondia com um fã que era paraplégico quando eu estava escrevendo o primeiro e o segundo livros. Ele me deu um monte de informações valiosas sobre como escrever sobre Bran e como seria estar nessa situação.
Mas, ultimamente, eu acho que a humanidade que todos os meus personagens compartilham é mais importante do que se são homens ou mulheres, princesas ou camponeses, altos ou pequenos. Enquanto estas coisas certamente fazem diferença, todos os tipos de seres humanos em todas as culturas ao longo da história têm desejado sucesso, amor, uma certa dose de prosperidade, conseguir comer e não ser morto. Estas são coisas muito básicas que motivam todas as pessoas e tento manter isso em mente ao escrever qualquer personagem.

Escolha os seus personagens com ponto-de-vista de forma a ampliar a narrativa

Minha história é essencialmente sobre um mundo em guerra. Ela começa muito pequena, com todo mundo no castelo de Winterfell, exceto Daenerys. É um foco muito estreito, e em seguida, conforme os personagens se separaram, cada personagem encontra mais pessoas e POVs adicionais entram em foco.
É como se você estivesse tentando fazer um romance da 2ª Guerra Mundial: você vai pegar apenas um soldado comum? Bem, isso só cobriria o cenário europeu, não o Pacífico. Você faz de Hitler um personagem com ponto de vista para mostrar o outro lado? E o lado japonês ou da Itália? Roosevelt, Mussolini, Eisenhower – todos esses personagens têm um ponto de vista único que representa algo enorme na 2ª Guerra Mundial.
Então, você pode ir a partir de uma estrutura de ponto de vista onisciente onde você está contando isso do ponto de vista de Deus, que é uma técnica literária bastante desatualizada, ou você tem um mosaico de pessoas que estão vendo uma pequena parte da história cada um, e através deles você pode obter toda a imagem. Esse é o caminho que eu escolhi usar.

A Dor é uma ferramenta poderosa (mas não exagere)

Apresentar a dor é algo difícil de fazer. Anos atrás eu escrevia para um programa de TV chamado A Bela e a Fera, estrelado por Ron Perlman e Linda Hamilton. Linda deixou o show após a segunda temporada para seguir uma carreira no cinema, por isso, decidimos retirar o personagem da história ao invés de substituir a atriz, porque era mais dramático. Tivemos a personagem morta e isso levou a uma grande briga com a rede [o canal].
Queríamos passar um episódio inteiro em que a personagem estaria enterrada e todo mundo passaria 60 minutos chorando e lamentando e compartilhando suas lembranças sobre ela. Mas a rede não queria que mostrássemos nada disso. Eles disseram “o personagem está morto, você precisa seguir em frente e apresentar uma nova Bela. Nunca mais vamos mencionar o nome de seu personagem novamente”. Toda a sala de escritores ficou horrorizada com isso. Era para ser uma história de amor pelas eras, ele não ia simplesmente esquecê-la e seguir para a próxima Bela.
Nós meio que ganhamos a batalha, mas perdemos a guerra. Apresentamos o episódio [como queríamos] e foi muito poderoso. Acho que nossos fãs mais incondicionais assistiram, derramaram muitas lágrimas e depois nunca mais assistiram a série de novo! A mágoa, o sofrimento, não necessariamente se traduz em valor de entretenimento. Dito isto, faz mais poderosa a narrativa. Apresentar não apenas a morte, mas a dor é importante. Em algum momento, todos nós experimentamos a perda de nossos pais, ou irmão ou amigos próximos e é uma emoção muito poderosa.

Evite clichês de fantasia

Eu amo fantasia e tenho lido durante toda a minha vida, mas eu também sou muito consciente de suas falhas. Uma das coisas que me deixa louco é a exteriorização do mal, onde o mal vem do “Senhor das Trevas” que está sentado em seu palácio escuro com seus asseclas sombrios onde todos se vestem de preto e são muito feios. Eu deliberadamente brinquei com isso. Veja a Patrulha da Noite, eles mesmos estão cheios de ladrões, saqueadores e estupradores, e são pessoas heroicas – mas todos eles se vestem de preto. E depois há os Lannister que são bonitos e justos, mas não são as pessoas mais simpáticas da história.
Na fantasia simplista, as guerras são sempre plenamente justificadas – você tem as forças da luz que lutam contra uma horda escura que querem espalhar o mal sobre a terra. Mas a história real é mais complexa. Há uma grande cena em Henrique V de William Shakespeare, em que Henrique vai andando entre os seus homens disfarçado na véspera da batalha de Agincourt, e alguns deles estão questionando se a causa do rei é justa ou não, e lamentando todas as pessoas que vão morrer para apoiar a sua reivindicação. Essa é uma pergunta válida. Então você tem a Guerra dos Cem Anos, que era basicamente uma briga entre famílias que mandou gerações inteiras para o matadouro. Então, eu tento mostrar isso no que escrevo.

Gerenciar muitos personagens requer habilidade (e sorte)

Eu às vezes me pergunto se será possível amarrar todos os fios soltos na minha saga. Tenho pesadelos quando eu penso sobre tudo se juntando nos últimos dois livros. Acho que posso fazer isso, mas vamos ver quando eu chegar ao fim. Às vezes, esses personagens malditos tem uma mente própria e se recusam a fazer o que eu quero que eles façam. Eu acho que nós vamos saber se tudo vai funcionar em uma década mais ao menos!

Lembre-se: O inverno está chegando

Valar Morghulis – Todos os homens devem morrer. Eu acho que a consciência de nossa própria mortalidade é algo que diz respeito mais a arte e a literatura. Mas eu não acho que isso se traduz, necessariamente, em uma visão de mundo pessimista. Assim como no mundo real, meus personagens estão aqui apenas por um curto espaço de tempo. O importante é o amor, a paixão, a empatia, o riso, até mesmo rir na cara da morte, se for possível. Há trevas no mundo, mas não podemos dar lugar ao desespero. Uma das melhores idéias por trás d’O Senhor dos Anéis é que o desespero é o crime supremo. O inverno está chegando, mas você pode acender as tochas e beber vinho e se reunir ao redor do fogo e continuar a lutar por um bom combate.

Mas seja lá o que você fizer, no entanto… Boa sorte. Você vai precisar.

Inscreva-se na página do evento da antologia no facebook, receba dicas para o seu conto e fale com outros autores participantes. O prazo para a submissão dos contos é dia 10 de julho, ainda dá tempo.

Leia a entrevista completa em:  Game Of Thrones Brasil 

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