Conto : A colheita de Perano


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A lua de outono escondia a sua face enquanto Perano escolhia seus passos entre os cadáveres espalhados pelo chão. Itar, o ferreiro, estremecia logo atrás dele, erguendo o lampião o mais alto possível, evitando os olhares vazios que questionavam sua presença naquele lamaçal de sangue e carne podre.

– Estou lhe dizendo, Perano. – A voz do jovem ferreiro parecia se condensar a sua frente, junto com a fumaça que lhe escapava aos dentes. – Devíamos esperar até amanhã. Deuses e demônios estão se banqueteando essa noite. E os espíritos dos mortos ainda carregam o ânimo da batalha.

– Silêncio, idiota. – Perano sussurrou para seu cúmplice. – Amanhã seremos homens ricos.

– Os soldados podem voltar, homem. Seremos enforcados. – Itar insistiu.

“Não podem não – Perano teria dito. – Estão todos mortos”, mas limitou-se a cuspir uma bola de escarro no olho de um soldado morto e a sorrir para a noite com seus dentes pretos.

Uma neblina gelada se espalhava pelo campo de batalha, tornando os cadáveres indistintos pelo chão. Haviam armaduras, espadas, escudos, sacos de moeda e anéis de ouro, enterrados entre os mortos que apodreciam sob suas botas, mas Perano não estava procurando por miudezas. Um homem rico tinha morrido naquela batalha e era sua bolsa de ouro que interessava ao moleiro.

Itar tropeçou em uma perna e ouviu o tecido da calça do cadáver rasgar, arrancando os ossos da carne morta. Caiu para frente enfiando a mão numa barriga aberta e cheia de vermes. Os dedos pegajosos e fedorentos pingaram diante dele uma massa cinzenta e pútrida.

– Os ossos já se misturaram, Perano. Alguém devia tê-los separado para as fogueiras. Os fantasmas vão ficar bravos.

– Não sobrou ninguém para separá-los, homem. Os clérigos fúnebres não vão vir antes do fim da lua nova de outono. Os deuses estão em seus salões, festejando sem se importar com os homens. Os fantasmas precisam ter paciência.

A batalha devia ter deixado sobreviventes, mas ou eles não se importavam, ou tinham se escondido de medo das criaturas carniceiras que rondam os campos de batalha. Estavam a dias da aldeia mais próxima e somente o acaso tinha colocado aqueles dois naquela estrada. Ninguém viria, não até que os festivais da lua negra terminassem e os deuses voltassem a se importar. Quando o dia chegasse, os imortais olhariam para baixo e veriam dois homens ricos.

– Tem alguém vivo, Perano!

O moleiro parou de andar. A lua negra e a névoa dificultavam sua visão, mas Itar parecia certo. Algo se movia no centro do campo, fazendo seu coração pulsar. Perano já não era nenhum jovem, seus cabelos brancos provavam os horrores que ele já tinha visto em sua vida, mas mesmo seu habitual desdém pela própria vida pareceu estremecer enquanto tentava entender o que tinha a sua frente.

– Tem alguém vivo entre os mortos? – Ele gritou ao vento, ouvindo Itar soltar uma praga atrás de si. – Alguém precisa de ajuda?

Perano tirou da manga uma pequena faca encurvada, do tipo que se usava para surpreender bandoleiros. Era toda ajuda que ele pretendia dar a quem quer que estivesse entre ele e seu tesouro.

– São os mortos, Perano. – Itar sussurrou. – Os ossos se somam em busca de paz. Vamos embora, antes que eles nos vejam.

Perano queria dizer que não, mas temia estar enganado. Os fantasmas se devoravam enquanto os ossos faziam o mesmo e algo se movia nas sombras. Algo que não respondia ao seu chamado e se ocupava mastigando e roendo.

– Nós viemos ajudar! – Perano mentiu enquanto a faca em sua mão dizia uma verdade trêmula. Estava ali pela riqueza, nada mais importava.

Mais um passo e a certeza de que algo se mexia entre os mortos. Uma massa, mais do que uma forma, uma presença, mais do que uma personalidade. Um pedaço de tecido ou lona que inflava e esvaziava com o vento, exceto que não ventava. Perano vacilou por um instante sentido Itar trombando contra suas costas. O lampião escapou de sua mão e caiu sobre a relva seca, começando um pequeno incêndio. Itar soltou um grito assustado e Perano gritou para que se calasse, mas era tarde, um ou outro a coisa tinha ouvido e parou seu barulho de mastigar para se voltar para trás.

Perano tentou se virar para correr, mas era tarde. A criatura saltou sobre ele, com garras e dentes a mostra, jogando-o ao chão entre os cadáveres e armaduras. Algo perfurou suas costas, mas ele não teve tempo de ver o que havia sido. Lutava contra uma confusão de presas que tentavam alcançar sua carne. Virou-se, viu a besta abrindo a bocarra para morder seu pescoço e enfiou o braço entre seus dentes, sentindo os caninos enroscarem-se em sua carne. A dor era maior do que seu medo e ele chutou e bateu, tentando escapar com vida. “Sagrados Deuses, olhem por mim!” Ele queria dizer, mas os deuses não estavam ouvindo naquela noite.

Perano ouviu seu braço estalar quando seus ossos se partiram e soube que estava derrotado. Seria apenas outro cadáver naquela pilha, apodrecendo através dos anos, enquanto seu fantasma não tinha descanso.

A dor já tragava os seus sentidos, quando sentiu a besta soltar seu braço em um gemido doloroso e se afastar.

Itar se aproximou oferecendo-lhe a mão para que se erguesse. O ferreiro trazia uma lança suja de sangue, capturada entre tantas armas caídas ao chão. Olhava o companheiro verdadeiramente preocupado.

– Você está bem? Ele se foi!

– O que era aquilo, Itar?

– Um lobo desgarrado, que tinha encontrado um jantar fácil. Venha, vamos ver seu braço.

Um lobo. Perano amaldiçoou sua idiotice. Lobos e outros animais carniceiros não tinham medo da lua negra. A carne exposta dos mortos era uma oferta generosa naqueles tempos de fome. O moleiro se ergueu segurando o braço, certo de que ele estaria quebrado. Itar ajudou-o com uma atadura e lhe ofereceu a lança como apoio para que se equilibrasse entre os mortos.

– No acampamento lavaremos isso com vinho fervido.

– Ainda não podemos ir embora.

– Vamos, homem. Temos moedas e espadas pelo chão. Levemos a nossa parte e deixe o resto para os mortos.

– Não. – Perano se irritou. – Voltarei para casa como um homem rico. Ali está!

Na direção em que Perano apontava, estava uma flamula que marcava a localização do nobre. A luta ao seu redor tinha sido tão dramática que os corpos se empilhavam em um pequeno monte que detinha o brasão no lugar. Seus inimigos e seus companheiros haviam lutado por sua vida.

Itar balançou a cabeça sem acreditar. O sorriso de Perano, porém, o convenceu. Haveria ali o tesouro de um nobre, talvez mais. Ajudando o amigo cambaleante eles se aproximaram a pilha, lutando contra o odor fétido e o barulho das moscas. A podridão parecia pior onde estavam.

– Veja, Itar! Um bracelete com rubis. – Perano comemorou ao puxar do monte um braço solto. A joia era uma pequena maravilha que poderia sustentar um homem e sua família até o fim dos seus dias, mas aquilo só atiçou sua ambição.

– O punho dessa espada é de ouro e marfim. Veja só a bainha! – Itar moveu um cadáver para soltar de sua cintura a bainha da espada que ele jamais tinha tido a oportunidade de usar. Certamente, haviam morrido ali os mais ricos.

Perano apoiou o pé sobre a testa de um morto e puxou com força uma corrente de ouro ao redor do seu pescoço, ouvindo a cartilagem dos ossos estalarem enquanto ele decapitava o cadáver. Colhiam ouro, pedras, moedas, espadas, anéis e até uma diadema de prata de um cadáver que mal lembrava uma mulher.

Itar e Perano sairiam dali com a fortuna de um rei. Tinham os braços carregados.

Então algo voltou a se mover ao seu redor.

Perano levantou a lança, tentando não derrubar o tesouro que acumulava junto ao peito, mas não encontrou o lobo que o havia assustado. Algo se movia nas sombras, grande demais para ser um lobo. Grande demais para ser uma pessoa.

– Itar… – Perano tentou avisar o companheiro, mas a coisa se avolumou sobre eles antes que pudesse dizer algo. Uma coisa imensa, com milhares de braços e pernas, que se costuravam em uma massa disforme, com milhões de cabeças pútridas que abriam a boca para revelar sua fome.

Perano largou tudo o que tinha nos braços pronto para correr, mas foi sabotado pelos cadáveres onde tropeçou e caiu, rolando pelo monte de corpos. Viu a massa de carne podre e ossos expostos se erguendo sobre Itar e o amigo erguer a espada dourada, como um príncipe das histórias infantis, apenas para ser devorado em um só golpe, com um grito aterrorizante que logo foi sufocado assim como teria sido o socorro de um afogado.

Perano sentiu as dores de seu corpo se esvaírem com o medo e se ergueu para correr, chutando e tropeçando os mortos daquele campo, com uma oração na ponta da língua para não se tornar mais um deles. O pesadelo, porém, se movia mais rápido e enroscando-se em sua perna com tentáculos de tripas cobertas de dezenas de dedos o arrastou de volta para a morte certa.

– Sagrados Deuses! – Perano invocava um poder que não estava no mundo naquela hora. – Não me deixem morrer!

– A morte, Perano, é boa demais para você! – O moleiro ouviu a criatura silvando. – Você viverá conosco, nessa meia-vida, até que a morte lhe pareça um agrado. Até que de nós não reste mais do que cinzas e nossa fome seja aplacada. Você viverá em nosso estômago, sendo digerido, Perano, uma polegada por ano.

– Não! Eu não mereço nada disso.

– A tragédia não respeita merecimento, Perano.

Foram as últimas palavras que ele ouviu com seus ouvidos mortais. A criatura o engoliu inteiro e o devorou em partes. Os vermes rastejaram pela sua pele, enquanto carne e vísceras apodrecidas enchiam seu estômago, alimentando-o. Seus sentidos todos se foram com os anos, mas ele seguia vivo, em um terror que não tinha luz. Sufocado na massa cadavérica daqueles que buscam por paz. Um século após o outro. Devorado pela sua própria colheita.

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