Entrevista : 4o Edição da FLAL


No último dia 15 eu tive o prazer de participar da 4o Edição do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL). Que tem se repetido todo ano em uma versão online. Foi uma experiência bastante interessante responder a tantas perguntas em um espaço tão curto de tempo. Para quem perdeu, aqui vai uma transcrição da entrevista.

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FLAL (Festival de Literatura e Artes Literárias): Boa tarde escritor Diego Guerra, seja bem-vindo.
Diego Guerra: Obrigado FLAL, é muito bom estar aqui.

FLAL: Boa noite, Diego, Seja bem vindo ao FLAL. Você segue alguma rotina de escrita?
DG: Sim. Eu tento escrever pelo menos duas horas todos os dias. Nas vezes em que isso não é possível parece que o dia foi jogado todo fora, então eu me esforço pra isso acontecer.

FLAL: Fale um pouco sobre seus livros.
DG: Tenho duas obras a venda hoje. O Teatro da Ira, foi publicado pela Editora Draco no ano passado e conta a história de Jhomm Krulgar, um mercenário que precisa escolher entre salvar o Império ou executar uma antiga vingança, é o primeiro de uma série de livros. Já o Gigante da Guerra, foi publicado este ano pela Editora Crown e conta a história de um casal de irmãos, que cuida de sua fazenda depois de seu pai partir para lutar na guerra do Imperador e que acidentalmente encontram um gigante ferido.

Daniela Garcia: Boa noite, seja bem vindo! Como você descreve a literatura brasileira?
DG: Boa noite, Daniela. A literatura brasileira, assim como a língua portuguesa é uma das mais ricas do mundo. É de altíssima qualidade. Na europa, alguns editores evitam autores brasileiros, pois o público os considera muito complexos. Veja bem. MUITO COMPLEXOS! é uma coisa linda de se ouvir. A chamada Alta Literatura é muito bem vista, infelizmente ainda existe um preconceito contra a literatura de entretenimento. Nem gosto de dividir as coisas dessa forma [entre alta literatura e literatura de entretenimento]. Acho que o Brasil faz um trabalho de excelente qualidade em vários campos, falta mesmo um apoio do mercado nacional. Obrigado pela pergunta.

Michelle Paranhos: Boa noite Diego! Acha que a HQ é um gênero literário por si só ou é uma porta para leitores criarem o hábito da leitura? Qual a importância da HQ no universo literário?
DG: Boa noite Michelle. Sim, HQ é um gênero literário por si só. Ele possuí uma estrutura que outras obras não possuem. HQ é o filho do livro com o filme. Durante muito tempo pensou-se que HQ fosse coisa de criança, mas hoje temos obras em quadrinhos que são tão grandes quanto qualquer livro. Como exemplo vou citar “Maus” de Art Spiegelman que ganhou o Pulitzer em 1992. Watchmen [de Alan Moore e Dave Gibbons, história que deu origem ao filme do mesmo nome] também, foi premiadíssimo e entrou na lista dos 100 maiores romances pela revista Times. Quadrinhos são incríveis.

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FLAL: Quanto tempo demora para escrever um livro?
DG: Cada livro é um processo. O primeiro rascunho do Teatro da Ira demorou 6 meses para ficar pronto. Outros rascunhos foram feitos ao longo de 2 anos. Já O rascunho d’O Gigante da Guerra ficou pronto em 30 dias, durante o NaNoWriMo, a versão final não tem muita diferença desse primeiro trabalho.

Adilson Mitzael: boa noite, pelo que vi você deu voz a imaginação, mesmo que uns consideram maluco. Essa “doidice” saudável, permeia seus personagens?
DG: Oi Adilson. adorei sua pergunta, cara. Acho que todo escritor tem um pouco de esquizofrenia. Essa história de ver e falar com personagens que não existem é uma constante. Eu gosto de personagens complexos, que não sejam inteiramente bons ou maus, que errem, falem palavrão, se arrependem, voltam a errar e se contradigam e acho que no fim, todos temos um pouco de doidice, embora nem sempre isso seja saudável. Certeza que muitos dos meus personagens são loucos sim, mas gosto de trazer também um pouco de coerência para loucura, assim você imagina que ele tem algum motivo de ser daquela forma.

Michelle Paranhos: Como você entende a ficção fantástica hoje? Há autores que mencionam fuga da realidade. Você concorda com esse posicionamento?

DG: Não concordo não. Entender a literatura fantástica como fuga da realidade é menosprezar alguns dos grandes gênios que existem por ai. A literatura fantástica é uma forma de usar a mentira para discutir a realidade e no fundo nenhum autor conseguiria escapar da sua própria realidade, pois, querendo ou não, a gente imprime uma boa parte da nossa realidade interna ao trabalhar uma obra. Eu escrevo para entender o mundo, mas principalmente para me entender também. E é incrível notar as correlações que existem entre a obra e a minha vida, mesmo que elas tenham surgido de forma subconsciente. Existe uma profusão de autores de literatura fantástica hoje no Brasil, o que é muito bom. Durante muito tempo, nós fomos renegados no meio editorial, vistos como uma literatura menor. Felizmente o cenário mudou e muitos autores de literatura fantástica vendem muito bem, o que levou a toda uma geração de autores novos. Ainda precisamos lapidar esses talentos, mas estamos no caminho certo.

FLAL: Como surgem as ideias para escrever um livro?
DG: De qualquer lugar, a qualquer momento. As vezes uma frase que eu escrevi em um livro me dá todo o enredo de um outro, em um gênero completamente diferente. As vezes um cenário de uma viagem me leva para um campo de batalha. As ideias estão soltas por ai, o mais difícil é agarrá-las a tempo, antes que elas fujam.

FLAL: Conta para nós… Um escritor está sempre absolutamente consciente do que faz?
DG: Não posso falar pelos outros, mas eu definitivamente não. Tenho bastante controle sobre meu trabalho, mas mesmo assim as vezes encontro leituras subconscientes que eu não tinha me dado conta antes. Acho que o comum é nos projetarmos em nossos personagens, tanto o lado bonito quanto o lado feio. É interessante ver o quanto do lado feio nós fingimos ignorar…

FLAL: As histórias dos seus livros tem essa leveza e graça como na biografia feita por você? [eles estão perguntando sobre essa biografia aqui]
DG: (Risos), obrigado! Não, acho que não. Sou um pouco pessimista sobre o ser humano e acho que isso acaba aparecendo no trabalho. Vez ou outra escrevo algumas crônicas que são um pouco mais leves, mas são só uma válvula de escape. O Teatro da Ira é uma aventura cheia de tropeços, onde todos estão errados o tempo todo. Personagens em um teatro que vão se embolando nas suas decisões. O Gigante da Guerra é uma história sobre as pequenas e grandes crueldades que o ser humano é capaz de justificar.

FLAL: Quando uma palavra ou expressão lhe escapam, você…
DG: Substituo. Quando eu lembrar volto no parágrafo e reescrevo. O mais importante é manter o fluxo.

FLAL: E quando escorrega num clichê…
DG: Tem clichês que funcionam, outros me enchem o saco. Acho que mesmo quando você tem um clichê nas mãos, você tem a oportunidade de trabalhá-lo de uma forma um pouco diferente e é interessante você tentar quebrar as expectativas. Fiz isso algumas vezes no Teatro da Ira (sem spoilers) e ainda recebo algumas mensagens furiosas perguntando “como assim isso ou aquilo não aconteceu”. A vida é cheia de decepções. Os livros não são diferentes.

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Adilson Mitzael o título vem antes ou depois?
DG: Para mim, vem antes. O título vem junto com o logline do livro. A ideia central. O Teatro da Ira é sobre personagens que se cruzam em um movimento que leva ao conflito, gira em torno de uma peça, mas todos os personagens tem um papel na trama central do livro, que é a guerra. O Gigante da Guerra é sobre um gigante que foi pra guerra, mas também é sobre aquilo de maior que existe em qualquer guerra, que é a desumanização do inimigo. O título pra mim tem que conversar com a história e geralmente, para mim, é um start de como começar a escrever.

FLAL: Qual dos seus livros teve um maior sucesso com os leitores?
DG: O Teatro da Ira está vendendo a mais tempo e já tem seu público, o Gigante da Guerra é um lançamento! (comprem, pessoal, vocês vão adorar), difícil comparar os dois, inclusive por se tratarem de editores diferentes com visões diferentes de mercado. O Gigante da Guerra nunca teve a intenção de ser best seller, mas recebeu ótimas críticas. O Teatro da Ira é uma obra mais palatável, por assim dizer.

Michelle Paranhos: Você gosta de usar leitor beta para seus livros ?
DG: As vezes. Tenho um grupo de leitores que me ajuda lendo e sugerindo modificações, mas nem sempre isso acontece. O Gigante da Guerra, por exemplo, saiu da minha cabeça direto para o colo da editora e ela fez a parte de leitura beta enquanto editava o livro mesmo. O mais importante é encontrar leitores em que você confie e cuja opinião seja imparcial. Uma tarefa que não é tão simples quanto parece.

FLAL: Gosta de trabalhar em silêncio absoluto ou prefere ouvir música enquanto trabalha?
DG: Para escrever, silêncio absoluto. Ando usando, inclusive, tampões de ouvido.

Carol Utinguassu: Você já deve ter participado de Feiras do Livro, né? Como se sentiu?
DG: Olha, é maravilhoso ter esse contato com gente que ama livros. Autografar seus primeiros livros numa feira é realmente uma emoção. Mas não tem glamour não, é um trabalho danado e eu fico impressionado com o pique do pessoal que consegue ir todos os dias e ficar o dia todo. O Stand da Editora Draco na Bienal de São Paulo estava lotada de gente e era incrível ver o empenho de toda a equipe e de todos os autores que estavam lá participando. Coisa de uma grande família mesmo.

Carol Utinguassu: Nossa, eu me senti tão sozinha… Foi terrível para mim porque tinha gente famosa do meu lado e a Editora Multifoco não estava comigo… Mas foi uma experiência diferente.
DG: Sim, também tomei um susto no stand da Draco, só tinha autores velhos de casa e o stand vivia cheio de fãs, mas todos me receberam muito bem e eu me diverti muito, apesar de ter ficado, francamente, exausto. Não estou acostumado a grandes aglomerações.

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Ironi Jaeger: Ao escrever tem a sensação de ser único? Ou acha que está copiando meio mundo?
DG: Oi Ironi, que boa pergunta! Eu acho que tenho a sensação de que estou sendo único copiando meio mundo (rs). Falando sério, é bobagem achar que você esta sendo 100% original a cada passo. Somos como esponjas absorvendo fragmentos de história 24 horas por dia e isso deve surgir aqui e ali. Agora, você pode usar isso como instrumento ou como muleta. Bom sempre verificar se sua obra para em pé se você retirar essas suas referências. É assim que eu tento trabalhar.

Carol Utinguassu: Outra pergunta, eu já trabalhei na produção editorial da Editora Grupo A Educação, como Revisora de Textos. Por ser apenas de livros técnicos, tecnológicos e acadêmicos, não me foi útil como escritora. Você teve mais facilidade no mercado literário por ser formado nessa área?
DG: Hummm… olha só Carol, eu sou viciado em livros desde que aprendi a ler. A minha vida toda eu queria trabalhar com eles. Achei que eu seria escritor tempo integral, mas a gente cresce e vê que não é tão fácil. Eu me tornei Editor porque eu amava escrever e era uma forma de ganhar dinheiro próximo aos livros. Tive outros amores depois (ilustração, pintura, design gráfico), mas a ideia sempre foi ficar por perto dos livros. O que quero dizer é que não me tornei escritor porquê passei pelo editorial, mas passei pelo editorial porquê me sentia escritor. Acho que no fim toda experiência traz algum benefício. Meu último livro saiu com a capa que eu fiz, o miolo que diagramei e com isso consegui reduzir o preço final junto a editora, para beneficiar o leitor. Minha formação em roteiro me ajudou a ver a estrutura de um livro de outra forma. Minha vivência de editora me ajudou a entender porquê certas coisas vendem e outras não. Acho que como escritores temos que aproveitar tudo o que nós vivemos para sobreviver em um mercado bem complicado. Será que eu ajudei ou compliquei mais?

Carol Utinguassu: Claro que ajudou, Diego! Perguntei por curiosidade porque gostei da sua biografia e me identifiquei com você. Sou formada em Letras, entrei na faculdade pelo interesse por idiomas, mas depois me apaixonei pela literatura e quis trabalhar na editora para saber todos os processos de fazer um livro. Amo isso. Mas a editora que escolhi para publicar meu livro não divulga nada, simplesmente cansei de me auto-divulgar e rescindi o contrato. Na hora certa vai surgir a Editora certa. Muito sucesso para você!
DG: É muito comum isso. A maioria das editoras pequenas depende muito do trabalho do autor. Força!

Ironi Jaeger: Como transporta o domínio do sensual ou pelo menos das qualidades sensíveis do mundo, para seus textos?
DG: Acho que o mistério é, antes de mais nada, começar a perceber o mundo. Passo muito tempo sozinho observando as coisas e treino bastante na descrição do que eu sinto. São exercícios diários que você faz para absorver um estilo. Quando você senta e escreve sobre a porta que range e deixa o odor de suor e cerveja barata te esmurrar o estômago, isso tem que surgir de forma orgânica, não pode ser forçado. Mas essa naturalidade só vem quando você consegue entrar na cena e sentir o odor, ouvir o rangido, etc.

FLAL: Alguma vez você aprendeu algo com uma crítica? Se aprendeu, isso mudou seu jeito de escrever?
DG: Todas as vezes. Sério. Tem uma reação natural do ego em se defender do ataque, mas é importante domestica-lo para ouvir o que o outro está dizendo. Algumas vezes a crítica tem razão, em outras ela deixou de perceber algo que você queria mostrar. Se ela deixou de perceber, será que não foi você quem errou em deixar isso pouco claro? Ouvir o crítico é ouvir uma opinião, você não precisa concordar, mas sempre vai te dar uma leitura diferente do que você tinha. Adoro ler todas as críticas da minha obra e, acredite ou não, mesmo as mais ferrenhas. Pois são essas que me ensinam mais sobre o livro ou sobre o que eu quero ou não quero no meu livro.

FLAL: O que você sente quando vai tirar a foto que será publicada na orelha do livro?
DG: (Risos), se eu pudesse, não tirava. Sou um bocado tímido. Gosto de trabalhar na coxia, não no palco. Mas entendo que faz parte do trabalho deixar-se conhecer pelo leitor.

Adilson Mitzael: já te correu de criar personagem cujos detalhes e nuances, se confundem com alguém real? Parecendo que você se inspirou na pessoa?
DG: Claro. É a parte mais divertida. Você pode colocar a cara do seu chefe num ogro e depois esmurrar a cara dele. [não que eu faça isso, claro!]

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Michelle Paranhos: A orelha do livro é parte fundamental e complementar à sinopse? Como vê o texto de orelha?
DG: Acho difícil. Todos esses texto de promoção do livro são bem difíceis. Tem que vender, não pode ser pretensioso, não pode falar muito, não pode dizer pouco. Acho que escrever orelhas é uma arte tão séria quanto escrever um livro. A Quarta capa é um anzol, você precisa fazer o cara parar para ler. Se ele curtir o que viu, vai querer saber mais na orelha. É a sua chance de vender o seu peixe. Na quarta capa você tem que ser mais objetivo, na orelha você pode ser um pouco mais profundo, mas não dê spoilers, heim?

FLAL: Alguma consideração final? Quer deixar os links dos teus livros?
DG: Queria agradecer a FLAL pela oportunidade. Adorei responder cada pergunta. Para quem quiser conhecer um pouco mais do meu trabalho, www.diegoguerra.com.br ou www.chamasdoimperio.com.br , ou é só me adicionar no facebook e me chamar para bater papo! Obrigado por tudo, pessoal.

FLAL: A equipe de mediação agradece a sua presença e lhe deseja uma FELIZ E ABENÇOADA PÁSCOA.
DG: Obrigado mais uma vez a equipe de mediação. A cada ano o evento fica maior e mais bonito. Feliz páscoa a todos.

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