Journal : A história como estátua de barro


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Gosto de escrever histórias com mais de um ponto de vista. Não, não roubei isso do Martin, embora ele faça isso de forma brilhante, eu já escrevia assim a muito tempo. Talvez tenha roubado isso do Yoshikawa, embora eu tenha alguma recordação de já fazer da mesma forma antes de ter lido Musashi. O mais provável é que eu tenha aprendido a escrever assim com filmes e histórias em quadrinhos, onde sempre que algo interessante vai acontecer a cena corta para outro personagem e deixa a gente na curiosidade. De certa forma Martin também roubou isso do cinema, ele era roteirista antes de ser romancista e Yoshikawa publicava em fascículos no jornal, romances seriados e pulps são a base estrutural das histórias em quadrinhos, então estamos todos mais ou menos na mesma escola (pretensão minha me colocar junto a Yoshikawa).

Escrever com múltiplos núcleos é uma tarefa caótica que eu ainda não consegui sistematizar. Basicamente você tem um desenvolvimento, um antagonista e um clímax para cada personagem, que podem se somar, se diferenciar, ou se trocar no decorrer da história. O emaranhado do texto, no meu caso, vêm surgindo de forma orgânica, com ação e reação, mas as vezes penso que seria mais fácil uma planilha, ou uma série de fichas. Em certas situações eu organizo as cenas em post-its, tentando encontrar a melhor ordem; em outras, preciso escrever em fluxo contínuo para depois conseguir achar a melhor posição do quebra-cabeças. Ainda não estou certo sobre qual seria a melhor solução, sigo aos trancos. Porém, fica cada dia mais claro que a coisa se organiza em minha mente de forma visual. A história só faz sentido de forma física, só ganha ordem na materialidade. Numa manhã não tenho nenhuma idéia, depois da primeira frase já são duas mil palavras.

Minhas notas e referências sobre a história seguem o mesmo padrão de caos. As vezes faço listas dos personagens e descrevo o que eles querem, outras vezes tomo notas de idéias que poderiam ser títulos de capítulo, mas que servem apenas como referencia. Em um poucos casos, durante meus rascunhos, escrevo cenas inteiras, testando as possibilidades da história. As vezes mantenho notas marginais sobre o que o personagem está sentindo no momento, outras são notas históricas sobre o cenário. Teste milhares de nomes até escolher um que funcione (tem que ser graficamente bonito e sonoramente interessante), para no fim desistir e trocar novamente. Faço listas de três páginas com tudo o que pode acontecer quando uma cena trava, do mais clichê ao mais deus ex-machine, sem pensar muito para tirar do sistema o óbvio e o absurdo. Desenho combates de personagem contra personagem, colocando seus objetivos em conflito e faço organogramas ininteligíveis que tentam por ordem no clímax, embora no fim, eles sempre beirem a inutilidade.

Tem muito trabalho na escrita, mas tem muito mais RE-trabalho. Você reescreve cenas, refaz personagens, reorganiza cenários, faz pesquisas e anotações, produz uma série de “sobras do processo” que ninguém jamais verá (graças a Deus). Sentar e sair escrevendo, do começo ao fim do romance, de forma linear me parece uma lenda que beira o ridículo. Se você não estiver disposto a reescrever, melhor nem começar a escrever. Uma história é como uma estátua de argila molenga, que você vai dando forma em camadas. Quando você levanta um braço, a perna enverga, quando você acerta a perna, o nariz cai, mas enquanto você vai manipulando a argila vai lentamente solidificando até ganhar o formato que você imagina. Daí resta lixar, polir, secar e queimar.

Eu acredito que todo mundo que escreve gosta de escrever, simplesmente porquê escrever dá trabalho demais para você fazer por outro motivo. Não imagino ninguém chegando do trabalho com disposição para se sentar no computador, com uma caneca de café, e ficar se lamentando por duas ou três horas sobre a própria incapacidade, para no fim de alguns anos (com muita muita sorte) ganhar uns trocados que mal pagam uma rodada no bar, se no fim das contas não amar o que faz. Por dinheiro, com certeza não é o objetivo, por fama é uma ilusão incoerente com a nossa realidade. Resta a necessidade mais básica, sádica (ou masoquista?) e terapêutica de aliviar um comichão que começa lá no fundo do cérebro, em um cantinho onde o dedo não alcança e você raspa e arranha com idéias, para ver se passa.

E eu escrevi tudo isso olhando para o meu caderno de notas e para a tela do computador, onde treze mil palavras tentam se alinhar de forma exata, para que eu feche o outline de um livro e comece efetivamente a escrever. Escrever é reescrever. A obra é o que sobra.

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