Journal : Outra vez uma mulher ruiva…


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Espada e Feitiçaria, é um gênero que provavelmente teve origem nos épicos gregos e nórdicos e comumente conta a história de um personagem e seus desejos pessoais sem muitos questionamentos filosóficos, focando-se principalmente na ação do personagem contra forças sobrenaturais. São histórias de estrutura simples (não simplistas) e curtas, que se tornaram populares através das revistas pulp.

Escrever espada e feitiçaria hoje precisa levar em conta que não estamos mais na década de 1930, nem na Grécia clássica. A definição do gênero é aberta o suficiente para incluir dentro do seu guarda-chuva toda uma gama de situações e personagens mais compromissados com o nosso tempo. O personagem principal não precisa ser um homem bárbaro com os músculos a mostra, nem uma ruiva sensual com biquíni de metal e uma grande espada as costas. O gênero aceita com a mesmíssima estrutura velhas guerreiras cansadas de batalha, homens negros lutando contra feiticeiros escravagistas, guerreiros homossexuais em busca de libertar o amor cativo. A variedade de histórias que se pode contar mudando apenas os personagens da história é vasta. O que pode render boas histórias dentro de um gênero que, nos moldes antigos, mostra sinais de desgaste. Que bom.

Durante a seleção para a falecida antologia Grimdark Brasil: Reinos Sombrios, tivemos uma série de dificuldades. Sobre a primeira, já falei antes, foi a confusão feita sobre  o que era Espada e Feitiçaria, Dark Fantasy ou Grimdark, gêneros muito próximos que na maioria das vezes não surgem em sua forma pura. A segunda e mais grave, era sobre a representação feminina e seus clichês. Foi sem espanto que eu notei que em 80% dos contos enviados havia uma mulher ruiva na história e isso independia do gênero do autor, homens e mulheres a incluíam com a mesma facilidade. Destes 80%, quando calhava da mulher ser protagonista da história, eu diria que na metade das vezes ela era o protótipo da Red Sonja, muitas vezes usando armaduras sexualizadas e outras tantas portando uma grande espada as suas costas. No geral, porém, essa ruiva genérica se limitava as funções de sacerdotisa, bruxa, interesse amoroso ou vítima da história.

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Se as dúvidas sobre inclusão e identidade ainda circundam a Espada e Feitiçaria, mesmo com excelentes exemplos de publicações desviantes, o mesmo não deveria se dar com o grimdark, gênero (ou proto-gênero) muito mais recente ao qual se inclui obras como A canção do fogo e gelo (George R. Martin) e O poder da espada (Joe Abercrombie), e o meu Teatro da Ira, entre outros. Ainda assim, os romances do gênero parecem dominados por homens brancos heterossexuais como protagonistas (com algumas raríssimas exceções), sob a justificativa absurda de que “naquela época era assim mesmo”. Essa pretensa acuidade histórica já não teria razão mesmo em um universo histórico realista, onde, hoje sabemos, tivemos exemplos de pessoas pertencentes a toda e qualquer minoria em posição de protagonismo, mas se torna completamente estapafúrdia diante de um universo completamente ficcional, onde dragões e seres fantásticos caminham entre as pessoas. Tentar convencer o público de que elfos existem, mas ordens de cavalaria comandadas por mulheres não, seria cômico se não fosse ridículo.

A verdade é que o protagonismo do homem branco heterossexual nas histórias grimdark acontece única e exclusivamente porquê elas são escritas pelos mesmos e para os mesmos e que a partir do momento em que houver uma pluralidade de autores e autoras, as histórias deverão seguir o mesmo rumo, sem maiores transtornos.

Voltando a minha experiência como autor, ao escrever o Teatro da Ira confesso que fui descuidado nas questões de representatividade. Hoje, relendo o livro, entre tantos erros grandes e pequenos, de longe o que mais me incomoda é ter escrito uma história tão centrada nos homens. Sinto falta dos personagens femininos da história e se refizesse a obra hoje, eu as incluiria, inclusive trocando o gênero de alguns personagens importantes. Já a questão da sexualidade foi de certa forma introduzida, mas como não houve espaço para essa discussão de forma natural, então ela foi deixada como acaso entre os diálogos, o que me agradou naquele momento e ainda faz sentido, mesmo na leitura atual. A orientação sexual dos personagens, em geral, não teve importância na história, mesmo assim, aos olhos atentos, estão lá as pistas das preferencias de cada personagem.

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“Image courtesy of National Novel Writing Month.”

Não posso deixar de agradecer a Camila Fernandes pela longa e deliciosa conversa que me fez reparar nesses meus deslizes e repensar uma série de questões sobre grimdark, Chamas do Império, Teatro da Ira e outras criações literárias. Sem ela, provavelmente teria insistido em muitos destes erros até entender o que eu estava fazendo, mas felizmente ela me alcançou a tempo de editar e salvar O Gigante da Guerra, destes erros. Escrever sobre Lenna e sua amizade com o gigante Druhu não foi a tarefa mais simples da minha vida, mas hoje posso enxergar como ela foi definidora do que eu gostaria que fosse meus próximos trabalhos. Lenna é uma garota simples em essência e absurdamente complexa em sua profundidade e foi um prazer vê-la ser concebida assim, mas mesmo depois de criada, faltava a Lenna a mesma coisa que faltava a Thalla no Teatro da Ira: uma constelação de mulheres, boas e más, egoístas e generosas, corajosas e covardes, que a gravitassem tornando-a, não uma exceção da história por ser mulher, mas uma exceção por ser quem é. Felizmente pude corrigir isso a tempo.

O artigo ficou longo, mas peço só um pouco mais de paciência. Certa vez eu ouvi de um leitor que uma história minha não fazia sentido pois ela era protagonizada por uma rainha guerreira e isso não existia na história do mundo. Minha resposta para isso foi criar um mundo onde isso não só existia, como era visto com uma coisa normal. Não usar a realidade como muleta dos nossos próprios preconceitos é uma tarefa difícil e dolorosa, mas que pode vir a ser, no fim das contas, bastante libertadora do ponto de vista criativo. Pense em como trocar o gênero, a raça, a opção sexual de um personagem pode alterar a sua história e talvez você encontre o ingrediente que faltava para você escapar de um clichê e tornar a sua história algo único.

É exatamente isso o que eu estou tentando para mim e para as Chamas do Império. Se eu vou conseguir, só lendo para saber.

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Uma resposta para “Journal : Outra vez uma mulher ruiva…

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