Journal : a cultura em universos fantásticos


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A construção de um mundo secundário não é uma tarefa simples, os detalhes são extensos e os caminhos são labirínticos dependendo do enfoque da obra. Tolkien construiu Arda através da linguagem, dando a cada povo sua própria língua. Lewis construiu Nárnia através da reinterpretação do cristianismo, centrando tudo na figura de Aslan/Cristo. Talvez o aspecto principal do mundo seja sua geo política, como em Game of Thrones, talvez seja uma interpretação da magia, como em fronteiras do universo. As opções são vastas e podem levar um autor a loucura com os detalhes. Os fóruns de escritores na internet estão atulhados de autores que a anos estão mergulhados no worldbuilding, muitas vezes sem ter escrito uma só linha do plot da história, com a expectativa de que todas as peças estejam no lugar.

E nunca estarão. O universo é complexo e nem mesmo o mais genial dos escritores vai acertar com exatidão todos os aspectos da existência, então convém focar apenas naquilo que realmente importa para o desenvolvimento da história e seus personagens.

Vejo que a maioria dos autores, quando se dedica a criação do universo de seus livros, se concentra principalmente na criação de uma linha do tempo consistente e em raças exóticas. Vez por outra alguém se importa em criar uma língua fictícia, ou um planeta com órbita erradica e dois sóis. Um dos aspectos, porém, que acabam sendo quase sempre negligenciados na construção de um mundo secundário é a cultura, ou melhor, a construção de uma relação multicultural entre os povos.

Por cultura entendemos não apenas a linguagem e o vestuário, mas também a culinária, a religião, os ditos populares, as tradições e superstições. Tudo o que nos identifica como povo e nos diferencia do outro. Enquanto a maioria dos livros de fantasia têm uma cronologia exata que remonta milhares de anos, são poucos aqueles que têm aspectos culturais divergentes que precisam coexistir entre si, o que torna bastante incongruente com as dezenas (as vezes centenas) de raças que coexistem em um mesmo espaço.

Não estou falando apenas da diferenciação cultural dos povos, mas também do intercâmbio que existe naturalmente entre as populações. O Brasil é um ótimo exemplo de país multicultural com regionalismos que se moldaram através das diversas populações que ocuparam um espaço geográfico. Os sincronismos entre as religiões africanas e cristãs, as misturas culinárias de migrantes de diversas partes do mundo, a absorção de palavras de outras línguas tornando-as proprietárias. A cultura brasileira é miscigenada e radiante, com vales e precipícios, incongruências e acertos, o que dá a tudo um sabor muito mais real e orgânico.

Os mundos de fantasia muitas vezes me parecem planos, com culturas que se tocam apenas pelas extremidades, imutáveis desde o inicio dos tempos, na maior parte das vezes apenas mimetizando a cultura europeia. Raramente vemos mais do que duas culturas diferentes em um mesmo universo e quando isso ocorre, uma é o espelho distorcido da outra, muitas vezes significando a diferença entre o bem e o mal. Os detalhes destas culturas, no geral, se diferenciam pela língua, pelas roupas, pelas moradias e, quando muito, pela religião, mas mesmo essa diferença religiosa parece muito mais uma variação entre temas do que duas religiões diferentes, ou, quando são diferentes, são diametralmente opostas sem pontos de conexão.

Gostaria que os autores dedicassem tanto tempo a definição das tradições de um povo quanto se dedica a sua cronologia, inclusive porquê a própria cronologia da humanidade tem buracos e falhas, é contraditória e se perde. Um mundo que se simula real pode ter um passado nebuloso, mas não deveria ter um presente genérico. É preciso pensar nos ritos de passagem de um povo, em como será a cerimônia de casamento, em qual é sua tradição funerária. Qual é a etiqueta ao se sentar a mesa? Porquê todos comem com garfo? Que mão se deve usar? Qual a ordem que são servidos os pratos e que condimentos marcam seus sabores?

Quando eu abro um livro de fantasia eu quero me sentir visitando uma terra exótica, onde as coisas são similares mas mesmo assim um pouco diferentes, como uma viagem para um país onde você não conhece a língua, mas quero também que neste país exótico as próprias regras sejam quebradas, que a população não seja homogênea. Que exista um cantor das terras do sol nascente entoando poesias de amor em uma cerimônia que só ele entende, que um ex-escravo se recuse a comer em um banquete por medo de ofender o dono da casa e que o dono da casa se ofenda porquê ele não comeu, afinal são costumes diferentes. Quero saber o que acontece quando alguém morre. Se devemos enterrá-los, cremá-los ou fazer sopa com seus ossos. E se as pessoas se casam por amor, por interesse e quais os protocolos a serem seguidos. Quero sentir que o mundo é vivo e cheio de música e que as pessoas não concordam sobre nenhuma verdade, pois assim é a vida.

Para saber quem somos hoje como povo é mais interessante saber que São Jorge é Oxóssi do que os motivos que levaram a Guerra do Paraguai. A ilusão de real muitas vezes fica ao se borrar os limites e desfocar o fundo de uma imagem. Se você quiser dar vida ao seu universo, pratique o sincretismo cultural e a imprecisão histórica.

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