Resenha : O poder da espada


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A algum tempo venho pensando em escrever algumas resenhas sobre livros que, de alguma forma, tangenciem meu trabalho. Sempre que esta ideia surge, porém eu me lembro que existem pessoas melhores que eu e com muito mais dedicação fazendo um excelente trabalho na divulgação de livros. O mundo não precisa de mais um canal literário e eu dificilmente teria disposição para lidar com autores e seus fandoms. Guardo a ideia na gaveta e esqueço o quanto ela coça, mas nunca por muito tempo. Bem, tirando essa introdução ridícula do caminho, chegou a hora de cravar as unhas nessa urticária e para começar, achei que não teria nome melhor do que O poder da espada, do Joe Abercrombie.

A leitura do Poder da Espada, o primeiro livro da trilogia da Primeira Lei, foi uma daquelas obrigações profissionais que você as vezes precisa se auto-impor. Depois de ver tantas resenhas por ai comparando O Teatro da Ira com a Primeira Lei, achei por bem tentar descobrir se isso era um elogio ou uma ofensa e confesso: ainda não sei.

Abercrombie tem um estilo fluído e bastante visual, com o qual me identifico e seus personagens vivem naquela área cinzenta que faz meu coração parar por um instante, mas não posso dizer que me apaixonei pelo livro. Li muita coisa melhor, aqui e lá fora e daria ao livro 5 de 10 morno de quem não quer perder a amizade, mas também não está preocupado em saber como anda a vida.

No fim das contas o problema do livro é um só, com várias ramificações: A edição. O Poder da Espada não é um livro que faz parte de uma trilogia, ele é parte de um livro que foi dividido em três partes e, ouso dizer, uma longa introdução (muito longa mesmo) de uma história que nem começa nesse volume. O livro é cheio de cenas desnecessárias, arcos que não chegam a lugar nenhum e personagens que apenas respondem chamada e somem sem fazer nada. A impressão que você tem quando o livro acaba é que nada de importante aconteceu, exceto o encontro dos personagens. Joe Abercrombie parece aqueles mestres de RPG iniciantes com um grupo de jogadores rebeldes, lutando para coloca-los todos na mesma história, sem explicar absolutamente nada do que vai vir a seguir.

A sensação que eu tive é a mesma que eu tenho quando leio alguns livros de autores iniciantes, a de que ele resolveu escrever uma trilogia pois elas estão na moda, mas para isso ele precisou esticar a história ao seu limite, só que, infelizmente, a história arrebentou.

Isso fica bastante claro no arco de Jezal e Ardee. Jezal é um soldado do exército da união arrogante ao ponto de se tornar uma caricatura, que tem um envolvimento amoroso com Ardee. Eu não sei se todo esse relacionamento tem alguma serventia futura, mas nessa longa introdução que se tornou o primeiro livro, ele só serviu para encher linguiça e acabar com a minha paciência. A história toda é tão desconexa com o resto que parecem dois livros diferentes. Se Jane Austen encontrasse Robert Howard e eles tivessem um filho feio que ninguém quisesse assumir, esse filho seria o arco de Jezal e ficaria o dia inteiro assistindo Yu-Yu-Hakisho. Sei que parece bizarro, mas juro que foi a minha sensação a cada tortuosa página desse personagem. Se existe uma razão que me motiva a ler os outros livros é a esperança de que Jezal morra o quanto antes.

O tempo gasto com Jezal poderia ter sido melhor utilizado no núcleo de guerreiros ao norte. Personagens interessantes, com nomes incríveis ficaram lá vagando a esmo, enquanto paginas e mais páginas de nada aconteciam no sul.

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O ponto alto do livro, de longe e sem nenhuma dúvida, é o inquisidor Gloka. Um ex-soldado que foi torturado ao ponto de ficar quase aleijado e que incapacitado de lutar resolveu usar seus conhecimentos para, bem, torturar outras pessoas. Deformado, cruel, dúbio, quebrado quase ao ponto da inutilidade, Gloka esbanja carisma e sarcasmo a cada página. Eu leria três livros dele, sem me levantar da cadeira e lamento que sua participação não tenha sido maior na história toda.

Se você me perguntasse sobre o quê é este livro, eu resumiria assim: O Poder da Espada é a história de como Bayaz reuniu Jezal, Gloka, Logen e Ferro. Ponto. A razão para o seu encontro e seu objetivo final seguem um mistério. Aliás, é interessante a capacidade que os personagens tem que aceitar ordens sem fazer perguntas. Logen é convidado a se juntar a Bayaz e como não tem mais nada para fazer resolve que tudo bem, Jezal preferia estar lutando na guerra, mas recebeu ordens então está lá, mesmo não gostando de ninguém. Somos lembrados o tempo todo o quanto Ferro desconfia dos outros e prefere trabalhar sozinha, mas bastou meia dúzia de palavras de Bayaz e beleza, vamos lá. Todos mergulham as cegas com destino ao desconhecido sem fazer as mais simples perguntas: onde nós estamos indo? Porquê estamos indo? Para quê você precisa de mim? O que eu vou ganhar com isso? Estão todos seguindo as cegas a história o que torna tudo meio anti-natural e forçado.

O poder da espada é o romance de estreia de Joe Abercrombie e isso transparece a cada página, mas que os devidos méritos sejam dados. As cenas de ação são bem construídas e a tensão que existe antes das batalhas funcionam muito bem. A preocupação em construir uma estrutura política ao menos um pouco diferente da monarquia tradicional é, por si só, motivo de palmas e ele ainda consegue colocar aqui a influência mercantilista e uma polícia que não deixa nada a dever a guestapo, mantendo tudo em seus eixos.

O cenário abusa um pouco dos clichês, principalmente quanto aos topônimos (você tem uma Angland e uma Terra do Meio), um norte selvagem e um sul desértico. A magia é ao mesmo tempo poderosa e rara e a saída que o autor encontrou para tudo não se resolver em um passe de mágica foi transformar o mago da história no mestre dos magos, ele sabe tudo e nunca diz nada e acaba sempre sumindo quando sua presença encurtaria o enredo.

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Não quero aqui passar a mão na cabeça do autor, mas é evidente a falta que um editor fez na história. Se você reduzisse o espaço para o monótono romance de Jezal e Ardee e jogasse o arco dos nortistas para outro volume, teria um livro menor e mais agradável, com espaço de sobra para responder pelo menos algumas perguntas e fechar ao menos um dos arcos, tirando a sensação de improviso.

A partir de hoje, quando alguém fizer a comparação entre o Teatro da Ira e A Primeira Lei eu vou querer saber se o livro é chato como o arco de Jezal, carismático como a história de Gloka ou desgovernado como as razões de Bayaz. Só então eu vou saber se foi um elogio ou uma ofensa.

Se você já leu O Poder da Espada, leia também O Teatro da Ira e mate a minha curiosidade.

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