Journal : Existe preconceito com a literatura fantástica brasileira?


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“Resplendent Griffin”; Sam Rowan

Ontem durante a conversa que eu tive com o Paulo Vinícius do Ficções Humanas e o Gleyzer Wendrew das Crônicas da Aurora, nós falamos um pouco sobre o mercado nacional de fantasia e sua evolução nos últimos anos e nos lembramos de alguns casos memoráveis (e alguns constrangedores) da fantasia.

Eu me lembrei, por exemplo, da primeira vez que apresentei um original de fantasia em uma grande editora e a carta de recusa dizia simplesmente que a editora não sabia como publicar aquele livro. Parece uma resposta ridícula hoje em dia, mas vinte anos atrás o mercado de literatura fantástica se limitava a Tolkien, Howard e algumas publicações na Isaac Magazine, restando aos autores brasileiros lutar pelo seu espaço no realismo mágico, terror ou ficção científica. Era simplesmente inimaginável um autor nacional publicar um livro de capa e espada e lá estava eu, batendo em uma editora com a aventura de um garoto de circo que precisava enfrentar um troll. Com a recusa, vieram os conselhos não solicitados, a maioria deles dizendo que eu deveria me dedicar a literatura séria, com direito a um ganhador do jabuti me dizendo pessoalmente  que a literatura de entretenimento precisava acabar, com a certeza de um juiz que manda o condenado para a forca.

Antes de ser um velho idiota eu fui um jovem idiota, e como tal eu acreditei em tudo aquilo e me debrucei em dramas existencialistas e realidades metafóricas, tentando encontrar a grande verdade da arte que o mercado queria tanto e descobrindo no processo o quanto aquilo era repetitivo e chato. Outro autor branco em crise, se transportando para seus livros para dizer verdades que ele não tinha verdade de dizer na cara de ninguém. Demorou muito tempo para entender que não importava o quanto aquilo agradaria a crítica, eu nunca seria feliz escrevendo sobre aquelas coisas. Demorou ainda mais um tempo para eu raspar as cracas do meu navio e voltar a navegar pelos mares da fantasia. E nesse meio tempo o mercado mudou. E que bom que mudou.

A mudança, no meu ponto de vista, veio através de dois fenômenos: 1) Harry Potter, que criou toda uma geração de fantasistas, que cresceu faminto por histórias de magia e monstros, tomou o mercado e, posteriormente, tomou também as vagas nas editoras, ampliando o espaço para publicações do tipo. 2) A série Game of Thrones, que fez basicamente a mesma coisa, agora para um público mais adulto, fiel e grande consumidor de franquias. Entre esses dois pontos as editoras se viram obrigadas a aceitar que a literatura fantástica tinha espaço e tinha público e aprenderam como trabalhar esse tipo de publicação. O mercado nacional começou a correr atrás de sucessos internacionais de fantasia adulta, tentando descobrir quem seria o próximo Game of Thrones e o mercado cresceu com tantas publicações do tipo que eu, francamente, estou sempre com a pilha de leitura acumulada, sem esperança de zerá-la um dia. Final feliz, correto?

Mas e o autor nacional?

A pergunta que fizeram ontem foi “ainda existe preconceito sobre o autor nacional de literatura fantástica?”. A resposta curta é: sim.

A longa, leva em conta o medo que as editoras tem de investir em um nome desconhecido e a baixa procura por autores nacionais do gênero. Em todos os grupos de literatura da internet sempre existe alguém que não tem receio em dizer que não lê autores brasileiros de fantasia. Os principais motivos listados são: baixa qualidade, cópia de literatura estrangeira, excesso de brasileirismos (sim, é contraditório a esse ponto). Existem também os defensores sempre dispostos a indicar algum dos diversos autores nacionais do gênero (e algumas das mesmas figurinhas carimbadas) e a discussão entre os dois grupos costuma ir longe. O fato é que a literatura nacional de fantasia, apesar de ser bastante embrionária, tem sim grandes exemplos de publicações de qualidade para todos os gostos do mercado. Obras de YA, Horror, Alta Fantasia, Grimdark, com brasilidade, sem brasilidade, etc. O mercado já se tornou tão fértil que existe sim a chance de você encontrar um autor que seja exatamente o que você está procurando, só que desta vez falando sua língua em uma vivencia muito mais próxima da sua.

Então de onde vem o preconceito sobre a obra de fantasia brasileira? Desconhecimento. Basta ver o estrondoso sucesso da Ordem Vermelha de Felipe Castilho para entender a diferença que uma boa máquina de divulgação faz sobre o sucesso de uma obra. A qualidade do trabalho do Castilho segue a mesma, a diferença é o surgimento de um investimento de marketing que impulsionasse o conhecimento da sua obra para fora do seu nicho.

Desse ponto em diante, me dou ao direito de me sentir esperançoso com o futuro. Acredito que a tendência é que a próxima onda de publicações fantásticas seja impulsionada por autores brasileiros, isso graças a um mercado crescente alimentado principalmente por grupos de leitores na internet; ao baixo custo dos autores nacionais que recebem em real, ao invés do dólar/euro, não tem adiantamento e não precisam de tradutor, e a qualidade crescente das obras. Assim como houve uma geração Harry Potter e uma geração Game of Thrones, acredito que existirá também toda uma geração que cresceu lendo e confiando em autores nacionais de fantasia e que um dia se tornarão os protagonistas das decisões dentro das editoras. Será um novo momento para a literatura nacional. Não acho, porém, que isso vá acontecer tão cedo. Será preciso toda uma geração se sacrificar para alimentar a imaginação desses futuros editores, autores e novos leitores, o que é uma pena. Ao autor nacional de fantasia, hoje, só posso lembrar o que é a verdadeira coragem. Entrar em uma luta com todo seu coração, mesmo com a certeza de sua derrota, com a esperança de pavimentar a vitória dos próximos. Então é isso. Vamos a luta.

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